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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Helena Almeida expõe pela primeira vez em Inglaterra

Técnica: Serigrafia
Dimensões do Papel: 56,5X47,5 cm
Dimensões da Mancha: 56,5X47,5 cm
A Helena Almeida está representada no Centro de Arte Moderna - Fundação Gulbenkian. É uma das artistas eleita, para fazer parte da exposição permanente, estando exposta com várias obras.




Jornal'The Guardian' elogia a portuguesa e elege-a como "artista da semana". Mostra até 15 de Novembro

A artista plástica Helena Almeida, cuja obra se encontra em exposição pela primeira vez no Reino Unido, foi escolhida pelo jornal The Guardian como "artista da semana".
"Seja a rasgar telas ou a comer tinta azul, esta artista portuguesa faz experiências com materiais para produzir um trabalho que é ao mesmo tempo libertador e complexo", escreve a crítica de arte Jessica Lack a propósito da exposição de Helena Almeida na Kettle's Yard, a antiga casa do curador e coleccionador Harold Stanley 'Jim' Ede, em Cambridge, que acolhe até 15 de Novembro uma exposição a solo da artista portuguesa com uma selecção de obras dos últimos 40 anos.
Da exposição, Lack destaca Estudo para um enriquecimento interior, de 1977, uma série de fotografias nas quais a artista aparece como se estivesse a engolir tinta azul - uma cor que remete para a obra de Yves Klein. A crítica recorda ainda o facto de a obra de Helena Almeida, nascida em 1934, estar marcada pela vivência do "regime de direita de António Salazar" e pela influência do movimento concretista brasileiro, liderado por Hélio Oiticica e Lygia Clark. A acompanhar a exposição, que tem o patrocínio da Fundação Gulbenkian, foi publicado um catálogo bilingue com informações sobre Helena Almeida e ensaios de Alyce Mahon e Lilian Tone.
Tags: Cartaz, Artes Plásticas

As formas culturais, a arte e a técnica no horizonte do século XXI


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www.sescsp.org.br/sesc/images/upload/conferencias/180.rtf
João Quartim de Moraes

Definição de cultura.
Há muitas noções de cultura. No essencial, elas remetem a duas concepções do termo, uma de origem filosófica e alemã (Kultur), outra de origem antropológica e anglo-americana (culture). Ambas consolidaram seu significado teórico na segunda metade do século XIX. Em 1860, Jacob Burckhardt publicou Die Kultur der Renaissance in Italien; em 1865, E.B. Tylor publicou Researches into the Early
History of Mankind and the Development of Civilization e em 1871, Primitive Culture, obras fundadoras respectivamente da concepção histórico-filosófica e da concepção etnológica do termo. A de E.Tylor é a mais célebre:
“Cultura ou Civilização, tomados em seu mais amplo significado etnográfico são aquela totalidade complexa que inclui conhecimento, crença, artes, moral leis e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade”[1] .
Significativamente, o livro de Burckhardt foi traduzido para o inglês sob o título de The Civilization of the Renaissance in Italy. Anunciava-se assim o recorte semântico do léxico inglês que privilegiava o sentido etnológico da palavra “cultura”, reservando o termo “civilização” para denotar as idéias (hegelianas) de
“espírito do povo” e “espírito do tempo”[2] . A rigor, a diferença de concepção pode se resolver em diferença de objeto. Os correlatos objetivos de cultura e civilização seriam genericamente os mesmos, mas as duas categorias aplicar-se-iam, respectivamente, a sociedades “simples”, outra a sociedades “complexas”. Em léxico filosófico, cultura seria civilização em si e civilização, cultura para si. A dificuldade, entretanto, está em encontrar a definição que dê conta do caráter complexo e multiforme dos fenômenos culturais, que interessam a praticamente todos os aspectos da atividade humana. Tanto assim que há definições filosóficas, históricas, sociológicas, antropológicas, políticas, etc. dos fenômenos, objetos, processos e instituições culturais.
Considerações análogas valem para noções conexas ou complementares, como civilização, técnica etc., que, sendo elas próprias culturalmente condicionadas, refletem as culturas que as condicionam. Tentar conciliá-las seria ingenuidade, mesmo porque, não sendo ideologicamente neutras, elas não escapam à polarização entre a posição idealista e a posição materialista. Optar por uma delas, sem perder de vista a objetividade teórica, é tarefa delicada. Teremos, pois o cuidado, sempre que necessário, de referir os sentidos mais gerais e usuais do termo “cultura”, bem como os dos demais conceitos que articulam a presente exposição, cujo principal objetivo é oferecer subsídios para o profundamento crítico das idéias dominantes, tanto as de ontem quanto às de hoje.

Por pressuporem um abismo ontológico entre o “espírito” e a matéria, os idealistas enfatizam a irredutibilidade das disciplinas culturológicas. As crenças religiosas conferiram a esta separação o estatuto de verdades do senso comum. Mesmo em ambiente acadêmico, a tradicional oposição entre ciências naturais e ciências humanas, quando não assume explicitamente o idealismo metafísico (a
essência do homem consiste na razão, na consciência etc.) classifica as ciências “naturais” de exatas e as “humanas’’ de inexatas. Oposição epistemologicamente insustentável. De modo geral, a exatidão do conhecimento é inversamente proporcional à complexidade do objeto conhecido, pouco importando se o objeto é sideral, geológico, botânico ou mental. Basta considerar que não há realidade mais caracteristicamente cultural do que o idioma. Ora, a característica básica de um idioma é seu sistema fonético, que é rigorosamente verificável em laboratório, cada um dos fonemas que o compõe sendo definido com precisão completa por seu ponto de articulação no aparelho fonador. Por outro lado, mesmo nas ciências ditas exatas, a possibilidade de determinar completamente um fenômeno é inversamente proporcional a sua complexidade. A astronomia, há milênios (quando se confundia ainda com a astrologia), é capaz de prever com precisão o movimento dos corpos celestes, mas a meteorologia, freqüentemente frustrada em suas previsões pela multiplicidade de fatores responsáveis pelo clima, é muito menos exata do que a fonologia, ciência humana.

O trabalho, criação de formas úteis
Estaríamos sendo toscamente materialistas se sustentássemos que entre cultura e agricultura há uma profunda proximidade conceitual? Temos uma longa tradição de nosso lado[3]. Nem sempre, é verdade, a tradição é boa conselheira. No caso, entretanto, estamos apenas nos distanciando criticamente das filosofias idealistas da cultura, que a identificam ao “espírito do povo” e ao “espírito do tempo”, opondo-a metafisicamente às condições materiais objetivas. Sabemos que a expressão “cultura material” tornou-se corrente entre historiadores e antropólogos. Aceitável para fim pragmáticos do ensino e da pesquisa, ela tem o defeito de sugerir que há uma cultura espiritual separada de sua expressão material. Mas se considerarmos como o especialista distingue uma pedra intocada pelo homo sapiens de uma pedra polida, objeto por excelência da “cultura material” pré-histórica, veremos que o caso limite da identificação do caráter cultural de uma pedra lascada é saber se a forma útil da lasca resulta da percussão e da raspagem, ou se é mero fruto do acaso. Como observou um dos maiores antropólogos franceses do século XX:
“o reconhecimento dos primeiros produtos da indústria humana não é cômodo [...]. Se é fácil reconhecer ferramentas a partir do momento em que manipulações complementares lhes conferem uma forma constante, é difícil pronunciar-se a respeito de pedras lascadas que seriam meros fragmentos brutos. As rochas clássicas, como o sílex e os quartzitos, submetidas a um choque violento, liberam estilhaços que apresentam no plano em que se estilhaçaram uma superfície conchóide , o bulbo de percussão. O choque, para determinar os estilhaços, deve ser aplicado numa direção e com uma força que, na maior parte das vezes ressupõem uma intervenção consciente, mas em bilhões de choques provocados pela ressaca nos seixos ou pela queda de uma cascata, o acaso determina um certo número de lascas de aparência humana”[4].
Se a pedra foi apenas lascada, o traço cultural permanece incerto. Mas se ela foi polida, o reconhecimento da forma que lhe imprimiu o trabalho (o “espírito” segundo os idealistas) está inscrita em sua materialidade, caracterizando-lhe o caráter cultural.
No capítulo do Capital, livro I, que leva por título "Processo de trabalho e processo de valorização", Marx define o trabalho como processo entre o homem e a natureza, no qual o homem, por sua própria ação, medeia (vermittelt), regula e controla seu metabolismo (Stoffwechsel) com a natureza. Ele próprio se conduz diante do substrato natural (Naturstoff) como uma força natural. Põe em movimento as forças naturais pertencentes a sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. Ao atuar através desse movimento sobre a natureza exterior a ele, e ao modificála, ele modifica conjuntamente sua própria natureza. Ele desenvolve as potências nele adormecidas e subordina o jogo de suas forças a sua própria dominação.
O trabalho aparece aqui no pólo oposto à natureza, embora a ela umbilicalmente ligado. O homem está posto, enquanto se constitui pelo trabalho, como força natural. Mas ao moldar e transformar a natureza externa, ele transforma ao mesmo tempo sua própria natureza. Resta determinar o significado (ontológico, diriam alguns) desta transformação em que o trabalhador ainda não humano, ao apropriar-se da matéria natural numa forma útil para a conservação de sua própria vida, auto-produz uma natureza própria que já não é mais a própria natureza. A questão não escapou a Marx, que esclarece:
Não se trata aqui das primeiras formas instintivas, animais, de trabalho. O estágio em que o trabalhador se apresenta no mercado como vendedor de sua própria força de trabalho deixou para o fundo dos tempos primitivos o estado em que o trabalho humano ainda não se tinha desfeito de sua primeira forma instintiva. Pressupomos o trabalho numa forma em que ele pertence xclusivamente ao homem. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos favos de suas colméias. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera”[5].
Excluir do foco teórico as “primeiras formas nstintivas, animais, de trabalho”, portanto ressupor o homem, é um procedimento inteiramente válido na economia política, como também é, para o biólogo, pressupor a vida. Assim como Darwin desvendou a lógica da evolução das espécies bem antes de Mendel desvendar as leis da hereditariedade e da bioquímica descobrir o ADN[6], Marx deslindou a lógica objetiva do capital, deixando em aberto o esclarecimento do processo que conduziu o hominídeo a produzir seus meios de existência material por uma forma exclusivamente humana de trabalho. Evidentemente, nem por isso a biologia deixa de se interessar pela origem da vida e o materialismo histórico pela do trabalho.
Marx não se limitou, entretanto, a declarar no Capital que seu ponto de partida é o trabalho humano e que, portanto a hominização (=o processo em que primatas se tornaram homens) está pressuposta. Assinala a técnica embrionária de outros viventes, notando porém que “o emprego e a criação dos meios de trabalho, embora se encontrem em germe em algumas espécies animais, caracterizam o processo de trabalho specificamente humano”, que ultrapassa a “primeira forma nstintiva” de trabalho[7]. O que distingue a aranha do tecelão e o pior arquiteto da melhor abelha é que eles constroem o tecido e o favo na cabeça, antes de produzi-los. Mas então em que estaria superada a velha metafísica que distinguia o homem dos demais animais pela consciência e pela razão? Contentar-se com a resposta habitual, a saber, que o homem se auto-produz pelo trabalho seria cometer petição de princípio: o trabalho produz o homem quando e porque ele começa a trabalhar de forma exclusivamente humana. No mínimo, seria preciso saber se a mão não foi tão importante quanto o cérebro para o salto evolutivo do homo sapiens.
É de Friederich Engels, apoiado em sua notável cultura científica, o grande mérito de ter encarado, em um dos mais notáveis tópicos de Dialética da Natureza, “o trabalho como fator da hominização do macaco”[8], a até então não estudada questão da determinação recíproca do trabalho e da hominização. Consideremos, para permanecer na ordem animal a que pertencemos, dois primatas, um macaco e um homo sapiens. Por que o macaco, quando colhe um fruto, não trabalha, mas o homo sapiens trabalha? Seria porque o fruto, no alto da árvore, refletiu-se em sua percepção visual? Não, porque os macacos, salvo acidente individual, tampouco são cegos. Se a “idéia” de apanhar o fruto, que surgiu no cérebro do homo sapiens, não tivesse surgido no cérebro do macaco, ele teria permanecido tranqüilo em seu galho. Seria então porque falta aos demais primatas a capacidade de antecipar no cérebro a colheita do fruto como satisfação de uma carência alimentar, isto é, de passar do reflexo ao télos? Esta é a resposta de
Marx, mas cabe então esclarecer em que consiste o télos compreendido como antecipação cerebral do ato aquisitivo e como provar que é monopólio do homo sapiens? Pela consciência? Não estaríamos diante de um círculo: provamos o telos pela consciência e esta por aquele?
Ao muito pouco conhecido entre nós, mas imprescindível filósofo marxista Tran-Duc-Thao, devemos a mais avançada reconstituição hipotética da evolução dos antropóides aos pré-hominídeos e destes ao homo habilis, através notadamente da sinergia entre mão e cérebro, trabalho e linguagem[9]. A destreza das mãos do homo sapiens, assim como o exponencial desenvolvimento de sua capacidade cerebral resultam de respostas adaptativas bem sucedidas, mas sempre aleatórias (salvo a reintroduzir o dedo de Deus na seleção natural) aos impasses da evolução. Permitiram, notadamente, o salto evolutivo decisivo que consistiu em passar da utilização de instrumentos stricto sensu (objetos naturais utilizados como meios para obter um bem de consumo) à produção de ferramentas, isto é, de meios de produção produzidos pelo trabalho, em que se concretizou a capacidade propriamente humana de impor formas úteis aos objetos naturais. Todo instrumento serve para, mas a ferramenta, instrumento autonomizado em relação à situação biológica concreta, é produzida afim de servir para. Só quando o hominídeo, ultrapassando a atitude aquisitiva própria ao aqui e o agora (condicionada pelo reflexo sensório-motor no contexto biológico imediato), tornou-se capaz de elaborar a imagem abstrata da forma instrumental, configurou-se o processo de trabalho especificamente humano, que consiste em impor aos objetos naturais uma forma útil plenamente adaptada a seus fins.

Historicidade da noção de forma
O significado histórico da noção de forma e das relações entre suas duas acepções principais. Na mais trivial, em que se opõe a conteúdo, ela denota configuração exterior, aparência, ao passo que, oposta a matéria, assume o significado ontologicamente forte de essência, que a escolástica medieval herdou da filosofia aristotélica. O primeiro sentido predomina na linguagem corrente, o segundo na linguagem filosófica.
A concorrência destes dois significados de forma remonta ao latim clássico. Arriscamo-nos a afirmar que o sentido filosófico forte, próximo ao de essência e explicitado na expressão forma substancial, provém da tradução pelos filósofos romanos dos termos gregos eidos, idea e ousia, consolidada no léxico filosófico medieval. Tanto assim que sofreu duro contra-golpe com o surgimento da moderna ciência da natureza. Ao explicarem os fenômenos físicos em termos de extensão ou distância, massa e força, portanto de matéria em movimento, a filosofia cartesiana, a cosmologia heliocêntrica e a física newtoniana excluíram das leis naturais a noção de forma, dissociando-a de matéria, a qual, entendida como “res extensa”, massa corpórea, adquiriu significado autônomo, portanto não-relacional. Sustentando que o cosmos é matéria em movimento, a filosofia materialista evidentemente reforçou esta mutação semântica.
Nem por isso, entretanto, a noção física de forma foi abolida. Continuou a ser utilizada para denotar agregados estáveis de matéria, das concentrações de massa que formam os corpos siderais, às partículas intra-atômicas que formam os átomos. Na física moderna, este uso, implícito na noção de corpo, permaneceu descritivo. Mas quando passamos dos átomos às células e destas aos organismos, portanto da física à biologia, a consideração da forma, manteve, sobre uma nova base teórica (a evolução das espécies), importância decisiva. Compreendida como espécie em ato (e não apenas como noção classificatória), a forma é o patrimônio, enraizado no código genético, que uma geração transmite à seguinte. No estudo da vida, ela é, pois tão importante quanto a matéria. É impossível estudar um organismo sem determinar a função dos órgãos que o compõem, sem, portanto levar em conta sua teleologia imanente: não podemos compreender o pulmão sem relacioná-lo com a oxigenação da corrente sangüínea, nem o fígado e o estômago sem a digestão etc. A biologia científica se distingue das velhas metafísicas do princípio vital por considerar as formas orgânicas produtos da evolução natural, cuja teleologia interna é o resultado aleatório de uma adaptação àquilo que hoje chamamos “ecossistema” e
não a objetivação de essências eternas ou criadas por Deus “ex nihilo” e salvas da extinção aquática pela arca de Noé[10].
Consideremos, passando da biologia à sociologia, dois sintagmas recorrentes no discurso político: forma democrática e democracia formal. No primeiro, o termo forma apresenta sentido forte (=estrutura, modo de ser, constituição ou princípio interno de articulação, determinação do gênero etc.), denotando um princípio de organização do poder político, portanto um complexo de regras e instituições que concretizam seu exercício. Já no segundo, o adjetivo formal tem o significado ontologicamente fraco do termo forma quando, por exemplo, o utilizamos para dizer que uma crítica é “justa quanto ao fundo (ou ao conteúdo), mas errônea na forma”. Por democracia formal entendemos, com efeito, os regimes políticos em que um verniz jurídico-institucional democrático recobre relações sociais não-democráticas. Identificada criticamente à democracia liberal e contraposta à “democracia social”, aquela expressão remete, na teoria marxista, ao conteúdo de classe (burguês ou proletário) das instituições políticas. Esta oposição corresponde, em outros contextos ideológicos, à antítese país legal/país real, em que se apoiou nomeadamente Oliveira Viana para criticar as instituições políticas do liberalismo brasileiro. No mesmo sentido, a expressão “independência formal” aplica-se aos países jurídica e diplomaticamente reconhecidos como independentes, mas que não dispõem dos meios efetivos para agirem como tais.
Notemos também que, a partir do século XVIII, na filosofia alemã, a oposição Form/Inhalt tornou-se importante polarização conceitual (Begriffspaar) na estética e na literatura. Neste sentido novo, a oposição ao conteúdo (Inhalt) não enfraquece a forma: a expressão, na arte, é essencial. A mesma amorosa nostalgia, que em poetas sem talento, costuma recorrer a chavões do gênero “sonhei com você esta noite” e em rimar paixão, coração, emoção etc., expressa-se, quando o poeta se chama Pablo Neruda, na sublime intensidade de sentimento cristalizada em palavras tão simples quanto,
Posso escrever os versos mais tristes esta noite,
Escrever, por exemplo, a noite está carregada de estrelas e tiritam, azuis, os astres bem ao longe.
Ou :
Mulher! Como pudeste conter-me na cruz de teus braços
E na terra de tua alma ?

Linguagem, arte e tecnologia: a perspectiva histórico-materialista
A linguagem stricto sensu (não incluídos os códigos de comunicação de outras espécies biológicas)[11] é condição social da consciência, que se origina no falar para si mesmo, portanto no vislumbrar o Eu como instância distinta do Nós gregário[12]. No mesmo tempo (pré-histórico) em que foi capaz de comunicar-se por palavras e traçar imagens nos muros rochosos, o hominídeo (provavelmente o homo habilis) deixou de recorrer apenas àquela pedra ali para atingir ou retalhar aquela caça acolá, passando a elaborar gama crescente de instrumentos de trabalho. O distanciamento relativamente à situação ecológica imediata,
condicionado pelo desenvolvimento das funções cerebrais, notadamente a linguagem, combinado ao da mão que executa aquilo que o cérebro antecipa, é tão indispensável à produção de ferramentas quanto às multiformes expressões artísticas: dança, canto, desenho etc.
Em nossa época consideramos técnica e arte categorias separadas. Vale notar, entretanto, que a Antigüidade clássica considerava-as idênticas: o termo latino “ars, artis” traduz o termo grego “technê”. Desta identidade restam, na linguagem corrente, as expressões “artes e ofícios” e seus sinônimos. A incorporação às maquinas da produção de formas úteis mudou irreversivelmente os dados da questão, afetando a compreensão das conexões entre cultura, arte e técnica.
Em sua insuperável análise da forma-mercadoria, Marx chama-a objeto sensível/supra-sensível. Sentimos na pele o contato do bom algodão da camisa, no próprio corpo e no olhar aprobativo dos circunstantes, a qualidade de seu corte. Não sentimos o trabalho de quem o plantou e colheu, fiou e teceu, costurou e cozeu. Constatamos a utilidade da transformação industrial, mas o esforço dos que a produziram não é visível. Sabemos também, a partir das análises marxistas da acumulação do capital, que com a passagem do artesanato à manufatura e desta à grande indústria, a capacidade de impor formas úteis aos objetos naturais foi sendo paralelamente transferida do produtor (gradualmente reduzido à condição de apêndice das máquinas) aos meios de produção. Desta subordinação do trabalho só escaparam (e ainda assim somente em parte, já que não escapam da lógica do lucro) a criação artística e a inovação tecnológica. Ontem e hoje, o trabalho que produz a massa das riquezas sociais permanece tão anônimo quanto o sofrimento do trabalhador, evocado por Neruda nas “Alturas de Machu Picchu”:
Pedra na pedra, o homem onde esteve?
Ar no ar, o homem onde esteve?
Tempo no tempo, o homem onde esteve?
Foste também o pedacinho rompido
do homem inconcluso, da águia vazia,
que pelas ruas de hoje, que pela terra batida,
que pela folhas do outono morto,
vai esmagando a alma até a tumba?
A pobre mão, o pé, a pobre vida...

A dimensão cultural da moralidade objetiva
Sirvamo-nos de uma analogia singela. Diante de duas fotografias, uma em pose, com sorriso estereotipado, outra espontânea porque tirada sem prévio aviso, diremos obviamente que a segunda retrata com mais veracidade o fotografado. Se pretendêssemos retratar-lhe não o físico, mas as convicções políticas, chegaríamos mais perto da verdade se em vez de aceitar sem exame a autodefinição do interessado, observássemos como se conduz efetivamente em relação a seus concidadãos. É evidente, com efeito, que, de modo geral, devemos dar preferência, para avaliar alguém, a seu comportamento concreto e não àquilo que ele declara ser. Se aceitarmos que por democracia devemos entender o poder do povo enquanto coletividade de cidadãos, a moralidade objetiva de uma sociedade, o sistema de princípios éticos que se concretizam no comportamento coletivo, será democrática na medida em que as normas e valores que incorporou e tende a reproduzir respeitem aqui e agora os direitos dos próprios concidadãos e, por extensão de toda a humanidade. Conforme a analogia fotográfica, a moralidade objetiva de uma sociedade é o modo como seus membros habitualmente se conduzem, quando não estão “posando”. Assim, devemos considerar verdadeiramente democrata quem age democraticamente e não quem apenas se proclama tal. Fazendo-o, entenderemos porque há tantos “democratas” e tão pouca democracia! Embora banal, a constatação merece ser levada a sério: tem aspecto de paradoxo, mas certamente não é mero jogo de palavras.
Consideremos uma das grandes misérias culturais de nosso quotidiano. Qual o significado ideológico concreto, isto é, investido na prática social em comportamentos coletivos sistemáticos o bastante para configurar uma “moralidade objetiva”, da tantas vezes constatada atrofia do sentido de civilidade, de cidadania e de espaço público na sociedade brasileira, tal como se manifesta no trânsito?
Parece-nos, com efeito, incontestável de que no trânsito brasileiro, os direitos do cidadão, reconhecidos pelas leis vigentes, são habitualmente desrespeitados senão pela “esmagadora maioria da população” (para retomar a fórmula estereotipada em uso durante a ditadura militar, durante a qual o problema do trânsito assumiu catastróficas proporções), certamente por uma massa crítica de maus motoristas responsáveis pela hecatombe de massacrados nas vias públicas. Há várias maneiras de “posar” para um retrato. Mas um obeso não pode aparecer como esbelto, por mais habilidoso que seja o fotógrafo, nem o idoso parecer jovem. Porém, quando se trata de imagem moral ou ideológica, há mais possibilidades de se apresentar como sendo o que não é. Sobretudo quando a mentalidade do “jeitinho” forja argumentos que embora logicamente pífios, servem de auto-justificação para os violadores contumazes dos direitos alheios. Um dos mais gastos é não respeitar o sinal vermelho por medo de assaltos. É só observar um semáforo para constatar que a esmagadora (no sentido próprio e figurado) maioria dos que assim agem não estaria ameaçada, se tivesse parado, por nenhum “elemento suspeito” (para usarmos a terminologia dos que têm tal mentalidade). Os assaltos a motoristas são em geral praticados em cruzamentos onde o trânsito está saturado, onde portanto só abolindo o princípio da impenetrabilidade da matéria seria possível avançar o sinal vermelho[13].
O arraigado respeito de outros povos, não somente do chamado "primeiro mundo", mas também de muitos do "terceiro mundo” (entre os quais, para vergonha nossa, não nos incluímos de modo algum[14]) pelo direito alheio a ir e vir pelas ruas, estradas e calçadas com um mínimo de segurança corresponde ao processo de interiorização das normas sociais e de rejeição dos comportamentos anti-sociais que constitui, no sentido genético e estrutural da expressão, o complexo cultural democrático, isto é, o caráter democrático da moralidade objetiva. Ao passo que a moralidade objetiva da parcela ponderável das motoristas brasileiros, de todas as classes sociais, que desrespeita constantemente as regras elementares do trânsito civilizado, configura-se como arraigadamente antidemocrática.
Da percepção do fato social à determinação de seu significado há uma distância intelectual saturada de obstáculos culturais, que com raras exceções, nossos cientistas e pensadores sociais não tem manifestado muito empenho em transpor. O mais notório, porque arraigado como enfermidade crônica da sociedade brasileira é a “cultura da impunidade”, com suas surradas invectivas contra a “indústria da multa”, quando o verdadeiro inimigo é a indústria da morte.

Cultura e revolução técnica
Estamos numa época de revolução cultural? O significado desta pergunta depende de discernirmos o que se revoluciona na cultura. Certamente não o idioma, exatamente porque está em constante evolução. O processo histórico é trânsito, movimento, devir, e quantos sinônimos mais nos proporcionar o estoque léxico. Contentar-se, entretanto, com esta constatação de bom-senso encerra o risco de perder de vista as diferenças de ritmo da evolução histórica. Sem sair do terreno do bom-senso, parece claro que, no Ocidente europeu, o século XVI, que inaugurou a chamada Era Moderna, merece muito mais a caracterização de época de transição do que, por exemplo, os séculos VI- X. Entretanto, num domínio, ao menos, os séculos que seguiram o desmantelamento do Império Romano do Ocidente foram atravessados por uma decisiva transição, de cujas conseqüências somos, e continuaremos sendo até o limite de nossa perspectiva histórica futura, tão ou mais tributários do que aquelas introduzidas pelo Renascimento, pela Reforma, pelo ciclo de Descobertas e de expansão planetária do capitalismo comercial, a saber, aquela que conduziu do latim vulgar às línguas românicas ou neolatinas. Transição com certeza muito mais lenta do que as que. Mas quem negará a importância bsolutamente fundamental do desaparecimento do latim como língua viva e do surgimento, a partir de seu tronco moribundo, das línguas nacionais da Europa Ocidental?
As revoluções técnicas de nossa época se sucedem e acumulam, mas estarmos sofrendo, sobretudo suas conseqüências perversas, das quais as armas nucleares são as mais evidentes. Apenas quatro anos e meio depois do presidente Franklin Roosevelt ter anunciado, na famosa mensagem ao Congresso de 6 de janeiro de 1941, um mundo baseado em “quatro liberdades humanas essenciais”, inclusive libertar a humanidade, “em nosso tempo e em nossa geração”, da miséria e do medo e implantar um “tipo de mundo” que seria a “verdadeira antítese” daquele “que os ditadores procuram criar com a explosão de uma bomba”, a dupla explosão nuclear de Hiroshima e Nagasaki ofereceu ao mundo estarrecido o indizível espetáculo de cerca de duzentos mil corpos carbonizados em alguns minutos pelo clarão letal dos dois imensos cogumelos radioativos.
Cairíamos numa unilateralidade pessimista, entretanto, se reduzíssemos a questão do significado da inovação tecnológica a seus efeitos perversos. São fantásticas as perspectivas abertas pela aplicação da micro-eletrônica à informática e do desenvolvimento das tecnologias de informação, que afetam as mais variadas dimensões da sociedade: a introdução de computadores nas escolas públicas disponibilizando bibliotecas virtuais, a difusão de computadores com acesso à internet, a generalização do uso do correio eletrônico, a formação de grupos de discussão na internet etc.
Mas os efeitos desta revolução técnica, como os de todas as que a precederam ao longo da evolução da humanidade, depende das relações sociais em que se inscrevem. A tendência a superestimar os aspectos positivos da nova tecnologia da informação levou alguns hiper-otimistas a sustentar que “daqui a cinco anos o jornalismo não vai ter mais essa cara”; “os meios de comunicação tendem a se fragmentar, espatifar-se em centenas, depois milhares de pequenos veículos pela rede...” . O problema do controle, por grande grupos capitalistas, dos meios privados de comunicação social resolver-se-ia assim, espontaneamente, por obra e graça da internet. Há um século atrás, o deslumbramento com o progresso científico e o pujante desenvolvimento industrial levou a ilusões semelhantes, brutalmente desfeitas em 1914...

Neoliberalismo e globalização.
Duas idéias-força dominam o discurso político internacional, mas suas forças respectivas agem em sentido contrário. A primeira, de evidente conteúdo crítico, justifica-se plenamente para designar, mediante o prefixo neo, o liberalismo ultra-reacionário que, contrariamente ao velho liberalismo do século XIX (empenhado em abrir caminho para a hegemonia burguesa, enfrentando, à direita, o
conservadorismo aristocrático e, à esquerda, a classe operária em ascensão), combate numa só frente contra as conquistas democráticas dos trabalhadores assalariados. Seguindo o exemplo angloestadunidense, as burguesias do mundo inteiro assumiram o "programa máximo" da reação neoliberal: resolver a "crise fisca " dos Estados capitalistas reduzindo os gastos do Estado, notadamente os dos serviços públicos, e suprimindo os direitos sociais dos trabalhadores e as funções estatais que os asseguravam, para poder reduzir os impostos pagos pelos capitalistas, aumentando-lhes os lucros.
A segunda, lançada pelos ideólogos imperialistas, serve de cortina de fumaça para a primeira. Como, entretanto, são muitos os que, à esquerda, embora reconhecendo os aspectos perversos da nova ordem liberal-imperial, aceitam caracterizá-la como "globalização", imaginando com isso estar sendo lúcidos e modernos (quantas vezes não ouvimos o chavão “num mundo globalizado...etc.”), parece-nos indispensável um comentário sobre seus efeitos ideológicos. A idéia que já veio pronta da matriz estadunidense: globalization é o nome que os imperialistas deram à contra-ofensiva planetária que desencadearam, com inegável sucesso, durante as duas últimas décadas[15]. Se o termo se tornou uma idéia-força no arsenal da reação internacional é porque, apresentando os interesses dominantes como expressão inelutável da marcha da História, desempenha, com razoável eficiência, sua função mistificadora. Estaríamos numa época em que, com a instauração da "comunidade internacional", os Estados nacionais teriam se tornado peças de museu. Os trustes, cartéis e outros "conglomerados multinacionais", desvinculados de qualquer base nacional, guiar-se-iam apenas pela "racionalidade" mercadológica, que exigiria a supressão das soberanias nacionais e dos direitos sociais.
Basta, entretanto olhar o que ocorre no planeta, sobretudo depois que o colapso da União Soviética rompeu, em favor do bloco imperialista, o equilíbrio estratégico instaurado em 1945[16]: com o apoio do cartel político-militar da OTAN (ainda que reticente no Iraque de 2003), a máquina bélica da “única superpotência” desencadeou um novo surto de agressões coloniais que ab-rogou na prática os princípios da soberania nacional e da não-intervenção nos assuntos internos de outros Estados, reativando os métodos nazi-facistas da “guerra total” e da destruição maciça dos países considerados inimigos. A infame ocupação imperialista do Iraque continua a derramar rios de sangue para garantir aos trustes estadunidenses um mar de petróleo.
João Quartim de Moraes

[1] Primitive Culture , I,p.1
[2] Para efeito de comparação, o Oxford Advanced Learner’s Dictionary of Current English (Oxford
University Press,1974), define civilization em primeiro sentido como state of being civilized e em segundo
sentido como system, stage of, social development. O primeiro sentido de civilize é bring from a savage
or ignorant condition to a higher one. Determina seis sentidos para culture, dos quais o primeiro, o quinto
e o sexto são nomes de ação, respectivamente cultivo do corpo e/ou espírito, cultivo agrícola e cultivo de
bactérias; o segundo é evidenceof intellectual development (of arts, science,etc.) in human society; o
terceiro state of intellectual development among a people e o quarto all the arts,beliefs, social
institutions,etc. characteristic of a community,race,etc.
[3] Consultando os catálogos temáticos da Biblioteca Nacional da França em Paris constatamos, por
exemplo, que no período 1894-1925 a esmagadora maioria dos títulos classificados na rubrica cultura
eram relativos à agricultura, alguns outros à cultura física ou à cultura moral no sentido pedagógico mas
pouquíssimos à cultura no sentido filosófico, histórico ou antropológico hoje predominante, por exemplo
à cultura francesa, antiga,etc.
[4] André Leroi-Gourhan, Le geste et la parole, Paris, Albin Michel, p. 130.
[5] O capital , volume I, livro I, seção III, capítulo 5, p.149.
[6] Não há de configurar excesso de zelo patriótico escrever ADN, para designar o ácido
desoxirribonucléico e não DNA, como escrevem os estadunidenses e agregados. Os portugueses, que
defendem melhor do que nós o próprio idioma, escrevem SIDA e não AIDS para designar a doença
transmitida pelo vírus HIV.
[7] O capital, ib., p.151.
[8] O título original do tópico, “Anteil der Arbeit an der Menschwerdung des Affes”, é em geral mal
traduzido por “o papel do trabalho na transformação (ou transição) do macaco em (para o) homem”.
Literalmente, significa: “a participação do trabalho no tornar-se homem do macaco”. Nossa tradução tenta
expressar esse sentido num português mais palatável. Escrito em 1876, foi publicado "post mortem" em
1896, em Die Neue Zeit.
[9] A obra maior de Tran-Duc-Thao é Recherches sur l’origine du langage et de la conscience, Paris,
Éditions sociales, 1973.
[10] Curiosamente, o capítulo do Gênesis que trata do dilúvio nada fala dos peixes, sem dúvida porque
feriria o bom senso sustentar que também eles estavam ameaçados de morrerem afogados.
[11] Por que estes códigos de comunicação não levaram à consciência, é uma questão certamente
relacionada com a da técnica: nenhum outro vivente ultrapassou a utilização de instrumentos para
produzir ferramentas.
[12] Tal é a notável hipótese de Tran-Duc-Thao. sobre os primeiros lampejos da consciência, vinculados
às situações de trabalho coletivo, notadamente quando um dos membros da horda caçadora, se
desgarrando dos demais, brada e gesticula não mais para se dirigir a eles, mas a si próprio.
[13] Uma reportagem de O Estado de São Paulo de 14-7-1991 sobre a selvageria do trânsito noturno
registrou depoimentos de infratores contumazes que seriam até pitorescos não fossem as trágicas
conseqüências. Uma assistente de marketing conta que quando só há mulheres em seu carro não hesita
em “cruzar o sinal vermelho em velocidade”. Um analista de sistema declara sentir-se “como um bobo”
quando fica “com o carro parado na madrugada, esperando o sinal abrir”. Para não se sentir bobo, dá sua
contribuição para a barbárie. Tem ao menos a sinceridade de reconhecer que “como há menos guardas
nas ruas, temos oportunidade de fazer manobras erradas, sem risco de multas”. Outro espertalhão
declara que “depois de enfrentar tanto congestionamento durante o dia não agüento ficar parado”. O
reporter assinala que num cruzamento da Avenida Sumaré, 120 carros atravessaram o sinal vermelho
entre 23 horas e 23,15. Todos contraventores responsáveis pelo fato de que, conforme dados da
Companhia de Engenharia do Tráfego (CET) , 50% dos acidentes ocorrem entre as 6 da tarde e as 6 da
manhã, quando apenas 20% dos veículos estão circulando.
[14] A diferença começa ao atravessar a fronteira que separa o Brasil do Uruguai. Uma notícia turística
informa que deixando Santana do Livramento e entrando em Rivera encontramos “um trânsito bem
organizado, onde não funciona o ‘jeitinho’ brasileiro: em caso de acidente o motorista é considerado
culpado até prova em contrário. O pedestre tem prioridade: na Avenida Sarandi, por exemplo, onde estão
muitas free shops, o motorista não pode avançar se houver um pedestre na faixa de segurança, mesmo
com o sinal aberto. O infrator é punido e o carro recolhido” (O Estado de São Paulo de 30-1-1990).
[15] Os franceses, sempre preocupados com a embalagem dos produtos, preferem falar em
“mondialisation”. Mas dizer que o mundo globalizou-se ou que o globo mundializou-se deixa o planeta tal e qual. [16] Sem mesmo esperar que Boris Ieltsin enterrasse no fétido lodaçal do neoliberalismo os restos mortais da grande revolução de outubro 1917, os valentões do Pentágono invadiram o Panamá com mortíferos bombardeios sobre a população civil, para, logo depois, despejarem sobre o Iraque um dilúvio de bombas, numa das mais atrozes operações genocidas desde a guerra do Vietnã. Os massacres balísticos da Sérvia em 1999, do Afeganistão em 2001 e, novamente do Iraque, em 2003, confirmaram mais e mais que há hoje poucos países da periferia a salvo de um ataque semelhante.

Inscrições Estéticas e Políticas das Artes em Mídias Digitais


Inscrições Estéticas e Políticas das Artes em Mídias Digitais
Ruy Sardinha Lopes é filósofo e doutor em Filosofia pela FFLCH-USP, professor de História da Arte do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da EESC e autor do livro Informação, Conhecimento e Valor, Ed. Radical Livros.

————http://www.ufscar.br/rua/site/?p=668

A acolhida que as artes em mídias digitais e eletrônicas vêm recebendo desde sua presença mais sistemática entre nós, durante a década de 1970 até os dias atuais, é reveladora do modo como enxergamos a relação entre tecnologia e sociedade. Se durante a década de 80 o otimismo em relação aos novos meios pôde ser contrabalançado por uma visão em grande medida apocalíptica - que deu origem a obras como Blade Runner, no cinema -, a partir de 1990 tentava-se rever, agora em chave positiva, as instâncias tecnológicas e seu impacto sobre a sociedade.

Apenas para se ter uma idéia do sentido em que rumava a aposta, vide as palavras de Edmond Couchot, aliás, um dos analistas mais sensatos sobre os novos meios:

Notemos, aliás, que estas interfaces [homem/máquina] tendem a solicitar cada vez mais regimes de percepção complexos e associados sinestesicamente (o multimedia, os jogos, certos dispositivos de realidade virtual são exemplos destes regimes de percepção). Assiste-se até a uma redistribuição da hierarquia do sensível e a uma remodelação do corpo: uma nova matriz perceptual - mutimodal - aparece em que o visual, menos retiniano, se recorporaliza. O modo dialógico atinge a sua plena complexidade quando as trocas transitam por intermédio de redes de comunicação numéricas. Trata-se, então, de grandes coletividades de sujeitos, disseminados através de todo o planeta, que se aparelham a um grande número de máquinas e interagem entre si[1].

Advento, pois, de um novo regime de visibilidade (numérico ou digital, em oposição ao representativo ou analógico), participando materialmente de uma outra mutação, mais profunda, do imaginário. Irrupção de um novo modo de ser dos objetos técnicos - menos rígido e hierárquico quiçá mais democrático - que dera origem a um imaginário numérico apto a transgredir nossos códigos perceptivos e cognitivos e nossa relação simbólica com o mundo.

Não que esta visão estivesse desacompanhada. Na verdade duas tradições, modernas, se cruzam nestes argumentos. De um lado a “tradição da ruptura” que enfatiza os cortes epistemológicos, as buscas de novas linguagens e poéticas, as dissonâncias com o passado próximo ou longínquo. De outro lado, a herança da empreitada das vanguardas, ditas positivas, a buscar a renovação das linguagens artísticas e da própria sociedade através do recurso às potencialidades do objeto técnico-industrial.

Atualizando, deste modo, tais heranças, vários artistas tiveram os holofotes voltados sobre si ao utilizarem satélites, telefones, fax, a rede de computadores e demais formas de produção, captação e distribuição de imagens e informações como fontes de expressão artística dando origem a produtos/processos muitas vezes de difícil apreensão conceitual, donde a variedade de termos para apreendê-los: arte digital, arte numérica, artemídia, cyberat, web arte etc.

Assim, é sintomático observar o quanto, por exemplo, toda uma teoria sobre o ato fotográfico - que possibilitou (ou ao menos explicou) as imagens de um Cartier Bresson - se tornou obsoleta diante do advento da câmera digital[2], o quanto a chamada realidade perde seu status ontológico diante da simulação (ou, em outros termos, o quanto a “figuração verossímil do real” se desqualificou) ou ainda o quanto a ubiqüidade, a abertura da obra e os processos cooperativos são intensificados pelas novas poéticas[3].

Das potencialidades abertas pelos novos meios tecnológicos, uma das mais revolucionárias é a trazida pela convergência digital. Isto é, a possibilidade de se interligar - através de sua redução às estruturas binárias (matemáticas, portanto) - campos e conteúdos sensoriais, cognitivos e semiológicos até então relativamente separados como formas visuais, sons e movimentos corporais. Se tal condição impõe algumas exigências morfogenéticas aos produtos/processos daí derivados, como, por exemplo, certa redução das ambigüidades e timbres da linguagem usual e certa ênfase - pelo menos no caso das artes numéricas - nas estruturas sintáticas; o quanto tais experimentações contribuirão para uma regressão da audiência, ficando presa às tautologias estéticas e mercadológicas - ainda que, agora, simuladas digitalmente - ou o quanto contribuirão para a conformação de um novo campo - perceptivo e conceitual- expandido (Rosalind Krauss), é uma questão que o tempo e a ação concreta dos criadores artísticos se encarregarão de responder. Para isso, entretanto, talvez seja necessário que nos afastemos do específico tecnológico para nos atermos aos mecanismos mais largos de inserção do estético na sociedade: o que leva, necessariamente, à politização (Ranciére) das mídias digitais na arte.

Expliquemos-nos melhor. A referência anterior a Rosalind Krauss, que cunhou o termo “campo expandido” para se referir à falência da lógica que regera a escultura moderna diante de algumas produções da década de 1960[4], serve aqui para mostrar em primeiro lugar que a revolução dos códigos artísticos sempre estivera presente na história da arte, não sendo, portanto, atributo exclusivo das novas mídias e, mais importante, que muitas vezes a revolução no campo perceptivo dá-se pelo modo de inscrição dos objetos/processos no regime das artes e diante dos demais fazeres sociais. Assim, ao propor um novo recorte e um novo modo de se relacionar com o “não-escultórico” (a arquitetura e a paisagem), a escultura contemporânea pôde, a um só tempo, renovar seus códigos internos e inscrever no regime das artes uma nova forma de visibilidade, modificando as relações existentes entre as formas sensíveis e os regimes de significação.

Para voltarmos aos nossos termos, não é, portanto, enquanto arte tecnológica que estas práticas configuram um novo sensorium espaço-temporal, mas no modo como tais fazeres - artísticos - inserem tais tecnologias no regime das artes e ressignificam sua relação com os demais processos sociais.

Se sabemos a importância e o papel estratégico das novas tecnologias para a reprodução do sistema econômico vigente e, para tanto, a necessidade que este tem de controlar os impulsos criativos nesta área (é sintomático o fato de justamente nesse setor o “trabalho artístico”, “criativo”, ser tomado como modelo para o processo produtivo), é esperado que ocorra uma acomodação de tais impulsos aos interesses do capital. Uma espécie de inscrição conservadora (ainda que a lógica econômica tome as rupturas, as “revoluções” e as “obsolescências” devidamente controladas como a força motriz de seu funcionamento) das artes em mídias digitais que, ao desviar a atenção para os feitos tecnológicos, dissimula sob a égide do novo a reposição do arcaico. Uma inscrição realmente disruptiva, que inventasse novos devires - estético e com isso, social -, seria aquela que, cremos, sabedora do modo de existência dos objetos tecnológicos em nossa sociedade os tencionasse em relação às formas de inscrição vigentes, possibilitando a emergência de novos campos expandidos. Tarefa que, evidentemente, não depende desta ou de qualquer instância técnica, mas das decisões políticas daqueles que as utilizam.

Referências

ARANTES, Priscila - Arte em tempo de estética digital. Disponível em http://www.priscilaarantes.com.br/PDF/arteem.pdf

COUCHOT, Edmond - Tecnologias da simulação. Revista de Comunicação e Linguagens n.25/26. Lisboa: Edições Cosmos, 1999.

KRAUSS, Rosalind - Sculpture in the Expanded Field, October, vol. 8. (Spring), 1979, pp. 30-44.

LOPES, Ruy S. - A cultura táctil e as imagens electrónicas. Revista de Comunicação e Linguagens. Lisboa : Edições Cosmos, 1999. p. 359-364.

LOPES, Ruy S. - A imagem na era de sua reprodutibilidade eletrônica. Dissertação de mestrado apresentada ao Departamento de Filosofia da FFLCH-USP, 1995. Disponível em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8133/tde-03072002-101335/

RANCIÈRE, Jacques - A partilha do sensível. São Paulo: EXO experimental org., Editora 34, 2005

SPERLING, David; LOPES, Ruy S. Deslocamentos da experiência espacial: de earthwork à arquitetura líquida. Disponível em http://cumincades.scix.net/data/works/att/sigradi2007_af93.content.pdf

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[1] COUCHOT, E - Tecnologias da simulação. Revista de Comunicação e Linguagens n.25/26. Lisboa: Edições Cosmos, 1999, p.25

[2] A possibilidade de um “infinito quantitativo fotográfico” , proporcionado pela câmera digital tem alterado a forma de relacionamento do homem com tais imagens, mas isso é assunto para outra ocasião.

[3] Se a interatividade é uma das buscas constantes na história da arte, sobretudo a partir da década de 1960, o caráter não linear, não hierárquico e atópico das redes de informação possibilita que tal conceito seja posto de uma maneira inusual pelas artes que utilizam de tais tecnologias. Além disso, o desenvolvimento de interfaces cada vez mais complexas possibilita renovadas interações homem-máquina.

[4] “Frente à negatividade característica da escultura moderna, ou seja, que se relacionava com a arquitetura sem se confundir com ela, e que estava na paisagem, mas não era a paisagem (a sua condição de não-arquitetura e não-paisagem), Krauss aponta como característico do período o aparecimento de vetores de expansão que partem da escultura como “combinação de exclusões” para a incorporação positiva dos termos arquitetura e paisagem. Nos dizeres de Krauss, a escultura, então, deixa de ser o meio termo privilegiado entre outros dois que ela não é, para converter-se em um termo na periferia de um campo que apresenta outras possibilidades estruturalmente distintas.” (SPERLING, David; LOPES, Ruy S. Deslocamentos da experiência espacial: de earthwork à arquitetura líquida. Disponível em http://cumincades.scix.net/data/works/att/sigradi2007_af93.content.pdf )

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O Vaticano faz lembrar e talvez desculpar-se a Galileo com uma exposição

FOTOGRAFIA DE 1919 en la que varias monjas realizan mediciones astronómicas en la Specola Vaticana, observatorio astronómico del Estado Vaticano, que forma parte de la exposición

La muestra, con motivo del Año de la Astronomía, recoge 130 objetos, entre ellos el manuscrito Sidereus Nuncius.
FOTOGRAFIA DE 1919 en la que varias monjas realizan mediciones astronómicas en la Specola Vaticana, observatorio astronómico del Estado Vaticano, que forma parte de la exposición
Con motivo del Año de la Astronomía y honrar la memoria de Galileo, el Vaticano presentó la exposición Astrum 2009, que muestra 130 objetos, entre ellos el manuscrito Sidereus Nuncius, del famoso astrónomo condenado por la Inquisición, y una copia del primer telescopio que usó.

Teodolito, un instrumento de medición mecánico-óptico que sirve para medir ángulos, del siglo XIX, que forma parte de la exposición Astrum 2009. Astronomía e instrumentos. El patrimonio histórico italiano 400 años después de Galileo, abrirá sus puertas el próximo día 16 en los Museos Vaticanos, donde permanecerá hasta el 16 de enero de 2010 e incluye libros, archivos e instrumentos procedentes de la Specola Vaticana, de los Museos Vaticanos y del Instituto Nacional Italiano de Astrofísica (INAF).

Tommaso Maccacaro, presidente del INAF -que engloba a los 13 observatorio astronómicos italianos- afirmó durante la presentación que la muestra en única en su género, ya que se abre con una sección dedicada a los instrumentos existentes antes de que Galileo comenzase a observar la luna, "cuando todas las observaciones -dijo- se hacían sólo mirando, hasta llegar a complejos e imponentes aparatos de hoy día".

Maccacaro añadió que los objetos que se exponen muestran la importancia que la astronomía ha tenido en el progreso del hombre "y nos hacen comprender que la tierra y el hombre no ocupan una posición o un papel privilegiado en el universo". "Son las observaciones de Galileo en 1609 las que validaron el modelo copernicano y la consiguiente revolución en la concepción del mundo", precisó, en referencia a la teoría de Copérnico, que sostenía que era el Sol, y no la Tierra, el centro del Universo en contra de lo que se pensaba en su época.

La exposición está dividida en siete secciones, los instrumentos de la astronomía antes del telescopio, los telescopios de Galileo, la óptica italiana del siglo XVII, los primeros observatorios italianos, astronomía y cartografía celestial, el nacimiento de las astrofísica y "no solo astronomía".

Durante el recorrido se pueden ver mapas, modelos de sistemas de Tolomeo y Copérmico, manuscritos, cuadros, fotografías, códices, libres y estatuas. Destaca el manuscrito "Sidereus Nuncius", de Galileo, conservado en la Biblioteca Nacional Central de Florencia, escrito por el astrónomo en 1610 y en el que expuso las primeras sensaciones descubiertas con el telescopio, así como el libro "De revolutionibus orbium celestium", de Copérnico (1473-1543).

También destaca una réplica del primer telescopio usado por Galileo. El original se encuentre en Florencia y forma parte de otra exposición sobre el astrónomo pisano en el 400 aniversario de los primeros descubrimientos astronómicos. Asimismo, se exponen relojes astronómicos de 1725, un telescopio ecuatorial de 1856, un péndulo cronógrafo de 1860, un telescopio de Joseph Fraunhofer, de 1822, así como un globo celestial del III siglo después de Cristo y otro de Vincenzo María Coronelli, de 1696.

El arzobispo Gianfranco Ravasi, presidente del Consejo Pontificio para la Cultura, resaltó durante la presentación la figura de Galileo y dijo que en el Vaticano "hay de nuevo interés" por el astrónomo, debido en parte a la nueva documentación hallada, que permiten analizarlo con objetividad y serenidad. Ravasi dijo ya los pasados meses que el Vaticano considera que tras la rehabilitación de Galileo Galilei por Juan Pablo II en 1992 los tiempos "están maduros" para una nueva revisión de su figura, "a quien la Iglesia desea honrar". "Hay que mirar al futuro", agregó el prelado, que relanzó el diálogo entre fe y ciencia, entre fe y razón, afirmando que "no es posible que puedan caminar separados, sin tener en cuenta el uno al otro".

Galileo Galilei fue condenado por la Inquisición por haberse adherido a la teoría de Copérnico, que sostenía que era el Sol, y no la Tierra, el centro del Universo en contra de lo que se pensaba en su época. El juicio, desarrollado a partir de las denuncias del dominico Tommaso Caccini, en 1616, concluyó el 22 de junio de 1633, cuando fue obligado a abjurar de sus conocimientos.

El 31 de octubre de 1992, a los 350 años de su muerte, Juan Pablo II lo rehabilitó solemnemente y criticó los errores de los teólogos de la época que dieron pié a tal condena, sin descalificar expresamente al tribunal que lo sentenció. En un discurso de 13 páginas, leído en la Sala Regia del Palacio Apostólico, el Papa Karol Wojtyla le calificó de "físico genial" y "creyente sincero", "que se mostró más perspicaz en la interpretación de la Escritura que sus adversarios teólogos".

Fuente: EFE bby Revista Ñ El Clarin

"gnomos nazistas" na Alemanha do escultor Ottmar Hörl



Um exposição excêntrica foi instalada na cidade bavara de Straubing do escultor Ottmar Hörl chamada "a dança do diabo" o artista produziu uma una instalação com 1.250 peças, bonecos pequenos com saudação nazista
A obra segundo seu autor é advertir como as masssas podem ser manipuladas, e por outro lado denunciando focos de neo-naistas existentes nos países europeus e pelo mundo.o
Penso que este tipo de obra atende aos dois lados: aos contra e aos adeptos do nazismo, a obra em si não em uma fecundidade plástica , senão apenas ideológica
Comentário Paulo Vasconcelos retirado o texto da Revista Ñ El clarin Ar.
Por: DPA / Münich

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O POPULAR NA ARTE MODERNA.


RAIZ DA QUESTÃO
http://bit.ly/11VY5m REVISTA RAIZ

DESVALORIZAÇÃO ESTÁ RELACIONADA AO RACISMO HIBRIDISTA PÓS-MODERNO.

POR EDUARDO SUBIRATS. TRADUÇÃO MARIANA BERGEL

As expressões mais delicadas do século 20, a música expressionista de Schoenberg, a pintura de Paul Klee, o teatro da crueldade de Antonin Artaud e as máscaras de Pablo Picasso se enraizaram com maior ou menor profundidade nos universos artísticos e poéticos da Índia e das culturas árabes, nas cosmologias e mitologias das culturas antigas da América ou nas tradições artesanais européias. Esse diálogo com o “primitivo”, ou seja, com as culturas anteriores aos dois escassos milênios de cristianismo, partia de uma busca espiritual. Os expressionistas de Die Brücke ou pintores como Franz Marc e Paul Klee são exemplos puríssimos nesse sentido. A busca de uma natureza re-sacralizada ou de um cosmos espiritual nascia ao lado de uma profunda crise, assim como da consciência do desmoronamento moral da civilização ocidental. Nas cosmologias celtas, nos mitos amazônicos ou na espiritualidade oriental, esses artistas buscavam luz e saída para uma época de guerras e obscurantismo tecnologicamente providos.

No Brasil, o Movimento Antropófago de Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Mário de Andrade criou um horizonte civilizacional novo a partir do “popular”, palavra que na América Latina compreende os restos das memórias das culturas e civilizações que se salvaram melhor ou pior do naufrágio colonial e pós-colonial. A pintura de Amaral resgatou o mundo mágico das culturas negras do Brasil. Oswald de Andrade descobriu que a língua tupi era mais abstrata, mais rítmica, mais poética, mais precisa e mais moderna que o português. E Mário de Andrade construiu a partir dos mitos, das músicas e dos deuses das selvas amazônicas a crítica inusitada e divertida da civilização capitalista, industrial e colonial. Esse diálogo e essa interação entre os mundos culturais antigos e modernos seguiram uma extensa e profunda tradição no Brasil. Guimarães Rosa é o grande paradigma: elevou as vozes marginais dos povos pobres do sertão a uma dimensão épica. Darcy Ribeiro representa por meio de suas novelas, diários e ensaios essa mesma preocupação em criar uma cultura inovadora com o diálogo entre as culturas européias e as literaturas, as religiões e a arte dos povos amazônicos e das comunidades afrobrasileiras. O Tropicalismo, com Glauber Rocha, Lina Bo Bardi ou Caetanto Veloso deu a esse projeto uma firme unidade e consistência.

As ditaduras fascistas da segunda metade do século 20 detiveram esse projeto de diálogo porque entrava em conflito com a constituição de comunidades democráticas não redutíveis à categoria de sociedades civis subalternas. E o vazio que deixou a destruição política desse intercâmbio artístico e a subseqüente constituição de uma “civilização brasileira” foi suplantado pela telenovela e pela pop art (produzida para o consumo de massa). Foi suplantado pelos valores populares diretamente produzidos, empacotados e disseminados pelas grandes cadeias da mídia, ou bem os valores éticos e políticos ditados pela academia e os museus norte-americanos: pop, o hibridismo, o post-art, o cinismo, o pós-moderno, os estudos culturais e a estupidez militante dos pós-intelectuais. Obviamente esta é a história oficial, é a história das burocracias museológicas e acadêmicas intelectualmente mais conservadoras ou simplesmente cegas. A outra história também está escrita. As pesquisas sobre arte popular de Lélia Coelho Frotta e sobre arte indígena de Berta Ribeiro podem ser citadas, entre outras. Existe uma extensa série de artistas, arquitetos e compositores que integram elementos das culturas populares do Brasil em suas obras. Não seria possível mensurar. E existem os assim chamados “artistas populares” com obras de enorme riqueza como J. Borges ou Ulisses Pereira Chavez. O fato de que suas obras não sejam expostas em museus está relacionado ao racismo hibridista pós-moderno.

Na Serra do Cipó, no coração da América do Sul, Ailton Krenak, um líder político, filósofo e xamã, reúne no equinócio da primavera austral, começo do ciclo anual indígena, os povos sobreviventes do genocídio ocidental das Américas. Cantam-se mitos milenares e dança-se ao ritmo cósmico de tambores e chocalhos sagrados para restabelecer a terra danificada e uma humanidade alienada de si mesma. Esse rito de reparação da terra significa a superação de todas as vanguardas, de todos os land arts e pop arts, de todos os post-arts e de toda a imbecilidade acadêmica que arrastam consigo. Indício de um novo humanismo universal.

Eduardo Subirats é professor de filosofia, estética, arquitetura, literatura e teoria da cultura na Universidade de Nova York

domingo, 11 de outubro de 2009

Três teorias sobre um problema central da estética

http://criticanarede.com/fil_tresteoriasdaarte.html



Aires Almeida
Introdução

Este ensaio apresenta aos estudantes de filosofia os problemas teorias e argumentos da estética, o que será feito da seguinte maneira:

Em primeiro lugar, procurarei mostrar que a estética é uma disciplina heterogénea, a qual tem sido encarada como teoria do belo, como teoria do gosto e como filosofia da arte. Direi muito rapidamente em que consiste cada uma dessas coisas e orientarei o seu interesse para a estética enquanto filosofia da arte, apresentando razões para isso.
Seguidamente, apresentarei as principais noções de base necessárias à discussão crítica dos problemas, teorias e argumentos da filosofia da arte.
Finalmente, apresentarei criticamente, mas de forma abreviada, algumas teorias e argumentos acerca do problema da definição de arte. A escolha das teorias tem por base o seu carácter intuitivo e a convicção de que traduzem de maneira organizada o que os alunos pensam de maneira desorganizada. Essas teorias são as designadas teorias essencialistas: teoria da imitação, teoria da expressão e teoria formalista.
1. O que é a estética?

O ramo da filosofia a que se dá o nome de «estética» inclui um conjunto de conceitos e de problemas tão variado que, aos olhos daquele que se inicia no seu estudo, pode parecer uma matéria demasiado dispersa e inacessível. Essa primeira impressão é compreensível, mas ultrapassável. Uma maneira de desfazer tal impressão é começar por esclarecer que a estética é a disciplina filosófica que se ocupa dos problemas, teorias e argumentos acerca da arte. A estética é, portanto, o mesmo que filosofia da arte.

Mas há um problema com esta forma de apresentar a estética: o termo «estética» não tem sido sempre utilizado nesse sentido. E isso não ocorre apenas em relação ao uso comum da palavra «estética»; ocorre também no interior da própria tradição filosófica.

Na tentativa de desfazer essa dificuldade, a estética é muitas vezes apresentada como a disciplina filosófica que se ocupa dos problemas e dos conceitos que utilizamos quando nos referimos a objectos estéticos. Só que isso pouco adianta se não soubermos antes o que se entende por «objectos estéticos». Podemos, contudo, acrescentar que os objectos estéticos são os objectos que provocam em nós uma experiência estética. Mas, uma vez mais, ficamos insatisfeitos, pois teremos agora de saber o que é uma experiência estética. Resta-nos insistir e perguntar: «O que é uma experiência estética?» Uma resposta possível, mas sem ser circular ― sem voltar ao princípio e afirmar que uma experiência estética é o que resulta da contemplação de objectos estéticos ―, é apresentar alguns exemplos daquilo que consideramos ser juízos estéticos, isto é, juízos acerca de objectos estéticos e que, portanto, exprimem experiências estéticas.

Eis alguns exemplos de frases que habitualmente proferimos e que qualquer pessoa estaria disposta a reconhecer que exprimem juízos estéticos:

F1: «Aquela casa é bonita»
F2: «O vale do Douro é belo»
F3: «O nascer do dia naquela amena manhã de Maio no Gerês com o cheiro a terra molhada e os pássaros a chilrear foi sublime»
F4: «A decoração desta montra está com muito bom gosto»
F5: «O último andamento da 9ª Sinfonia de Beethoven é emocionante»
F6: «O quadro Mulher-cão de Paula Rego é uma verdadeira obra-prima»
F7: «O livro Ulisses de James Joyce é uma obra complexa»

Estas frases parecem trazer de volta a impressão inicial de que os problemas da estética são heterogéneos.

Assim, frases como F1 e F2 exprimem juízos acerca do que se considera ser bonito ou belo, mas nenhuma das outras o faz. Talvez F1 esteja também a referir alguma obra de arte (se essa casa for, por exemplo, a casa da cascata, de Frank Lloyd Wright) o que não acontece com F2.

Por sua vez, frases como F4, F5, F6 e F7 exprimem a opinião de alguém acerca de algo realizado por outras pessoas, mas enquanto as três últimas referem obras de arte, tal não sucede com F4.

Quanto a F3 e F4 sabemos que não está em causa o conceito de belo nem se refere qualquer obra de arte, mas apenas o que sentimos em relação a algo que simplesmente nos agrada. Isso é também o que acontece em relação a F5, só que desta vez a propósito de uma obra de arte.

O que podemos concluir daqui?

Se os nossos exemplos se limitassem a F1 e F2, então a estética seria entendida apenas como teoria do belo, pois o problema parece consistir em saber o que significa «ser belo».

Caso pensemos apenas em F3, F4 e F5, o que temos como problema já não é rigorosamente o do significado de «ser belo» mas o de saber por que razão e sob que condições acabamos por formar esse tipo de juízos, ou seja, juízos de gosto (nesta perspectiva também F1 e F2 podem simplesmente ser tomados como juízos de gosto).

Finalmente, se pensarmos em F1 (pelo menos em certos casos, como o da referida casa da cascata ), F5, F6 e F7, o problema com que nos deparamos não é o do belo, nem sequer o do juízo de gosto, mas sim o problema de saber o que é e como se avalia uma obra de arte.

Estamos, assim, em condições de concluir que a estética pode ser ― o que de resto é mostrado pela sua história ― uma de três coisas: teoria do belo, teoria do gosto ou filosofia da arte.

Deveria também ficar claro que a teoria do belo não exclui completamente do seu domínio muitas das obras de arte e a filosofia da arte não se desinteressa completamente de algumas obras belas, tal como a teoria do gosto se pode aplicar quer a objectos belos, quer a objectos de arte.

Urinol, de Marcel Duchamp (1887-1968)
Mas não devemos confundir teoria do belo, teoria do gosto e filosofia da arte. Até porque há obras de arte que não são belas, como o célebre Urinol, de Marcel Duchamp; há obras de arte de que não gostamos, como acontece comigo em relação à música dos Madredeus, aos quadros de Júlio Pomar, aos livros de José Saramago e aos filmes de Manoel de Oliveira; há coisas belas que não são arte, como um pôr-do-sol natural e a planície alentejana; e há coisas de que gostamos que não são arte nem são belas, como a nossa caminha e melão com presunto.

Isto significa que os objectos que fazem parte da extensão dos conceitos de belo, de gosto e de arte não são os mesmos, pelo que não estamos a discutir os mesmos problemas quando discutimos cada um desses conceitos.

Em que ficamos, então?

Se bem que a estética tenha sido entendida inicialmente como teoria do belo e só depois como teoria do gosto, é como filosofia da arte que ela é actualmente entendida. Vale a pena, ainda que brevemente, apresentar algumas razões para isso:

Em primeiro lugar, tanto a teoria do belo como a teoria do gosto dirigiram o seu interesse de forma particular para as obras de arte. Para além do problema de saber o que é o belo, um dos problemas colocados pela teoria do belo foi o da distinção entre o belo natural e o belo artístico. No mesmo sentido também os defensores da teoria do gosto procuraram compreender porque é que a arte está na origem de grande parte dos nossos juízos de gosto.
Em segundo lugar, a teoria do belo e a teoria do gosto não conseguem dar conta de muitos dos problemas que se colocam com o conceito de arte. É o caso das obras de arte que dificilmente podemos considerar belas e daquelas de que não gostamos mas não podemos deixar de considerar obras de arte.
Em terceiro lugar, o desenvolvimento da arte consegue levantar problemas acerca dos conceitos de belo e de gosto que estes não conseguem levantar acerca da arte. Isso torna-se evidente quando, por exemplo, os gostos e a própria noção de belo se podem modificar à medida que contactamos com diferentes obras de arte (a ideia de que a arte educa os gostos e influencia a nossa própria noção de belo).
2. Estética e filosofia da arte

É, pois, como filosofia da arte que a partir de aqui irei falar de estética. A filosofia da arte é, por sua vez, formada por um conjunto de problemas acerca da arte, para a resolução dos quais concorrem diferentes teorias. Algumas dessas teorias e os argumentos que as sustentam serão aqui discutidos, nomeadamente aquelas teorias que têm um conteúdo aparentemente mais intuitivo, isto é, aquelas que colhem a adesão espontânea de grande parte das pessoas que se defrontam pela primeira vez de forma directa com o problema. São também as teorias mais antigas e que, embora com um menor poder explicativo, gozam de uma popularidade assinalável.

2.1. O problema da definição de «obra de arte»

O primeiro problema que qualquer teoria da arte tem de enfrentar é o problema da própria definição de «arte» ou de «obra de arte». Como podemos então definir «arte»? Para o saber temos de perceber antes o que é definir algo.

Tipos de definições

Há quem defenda que definir um conceito é dizer em que consiste e caso não saibamos defini-lo dessa maneira também não estamos em condições de o utilizar adequadamente. Defender isto é o mesmo que dizer que há apenas uma forma de definir conceitos, o que não é o caso. Ao contrário do que é vulgar pensar-se, não existe apenas um tipo de definições. Sabemos utilizar perfeitamente o conceito «azul» sem que, no entanto, o possamos definir dessa maneira. Não o saber definir dessa maneira não é o mesmo que o não poder definir. Para compreendermos isso é preciso distinguir dois tipos de definições: definições explícitas e definições implícitas.

Diz-se que uma definição é explícita quando apresentamos as condições necessárias e suficientes do conceito a definir. Mas o que são condições necessárias e suficientes? Oferecemos uma condição necessária de X se apresentarmos uma propriedade que qualquer objecto tem de ter para ser X. Por exemplo, se dissermos que uma mãe é alguém que já teve filhos, estamos apenas a referir uma condição necessária para alguém ser mãe (de facto ninguém pode ser mãe se não tiver tido pelo menos um filho); só que isso não é suficiente, pois há pessoas que já tiveram filhos, como é o caso dos homens com filhos, e que não são mães. A condição necessária aplica-se a todas as mães, mas não tem de se aplicar só às mães. Temos, pois, de definir «mãe» de tal maneira que a definição inclua as mães e só as mães, o que se faz indicando a condição suficiente. Uma condição suficiente de X é uma característica tal que se um qualquer objecto a possui, então esse objecto é X. Isso indica-nos que se trata de uma característica de X e apenas de X. A condição suficiente de X não nos garante, pois, a inclusão de tudo o que queremos incluir na definição de X. Para dar um exemplo, é condição suficiente viver no Algarve para viver em Portugal, embora essa não seja uma condição necessária. Afinal de contas, as pessoas que vivem no Minho também vivem em Portugal. Voltando ao meu primeiro exemplo, se quisermos dar uma definição explícita de «mãe» teremos de dizer qualquer coisa como isto: «alguém é uma mãe se, e somente se, é do sexo feminino e já teve filhos». Ser do sexo feminino e ter tido filhos são em conjunto propriedades suficientes para alguém ser mãe; mas cada uma delas em separado é apenas condição necessária.

Já numa definição implícita não temos de oferecer as condições necessárias e suficientes de um conceito. Exigir, por exemplo, as condições necessárias e suficientes do conceito de azul, é fazer uma exigência que não pode ser satisfeita. Penso que o mesmo acontece também com o conceito de filosofia. Daí o embaraço do professor de filosofia quando o aluno lhe pede que defina a disciplina que lecciona. Significa isso que não podemos definir tais conceitos? Se estivermos a pensar numa definição explícita, é claro que não. Mas é perfeitamente possível dar uma definição implícita, que é o que fazemos com as crianças quando lhes queremos ensinar as cores (e com os alunos quando nos perguntam o que é a filosofia) e o que provavelmente teríamos de fazer se nos aparecesse por aí algum extraterrestre interessado em compreender o que dizemos. Assim, para dar uma definição de X, usamos esse conceito em situações diferentes de tal modo que, ao fazê-lo, estamos a exemplificar as propriedades dos objectos que com X queremos identificar. Diríamos, então, ao extraterrestre que o céu (poderíamos até apontar) é azul, que o mar é azul, que as camisolas do Belenenses são azuis, e por aí em diante.

Definições e caracterizações

Mas acontece, ainda assim, que muitas das nossas definições implícitas nos deixam insatisfeitos. Precisamos de saber algo mais acerca dos conceitos definidos. Algo que seja relevante para a compreensão do conceito e que nos informe acerca das propriedades mais importantes dos objectos que fazem parte da sua extensão. Para isso é que servem as caracterizações, isto é, a apresentação das principais características daquilo que os conceitos referem. No caso da filosofia, o professor pode apontar exemplos de problemas, teorias e argumentos filosóficos. Estará assim a dar uma definição implícita de filosofia. Mas pode e deve ir mais longe, fazendo acompanhar a sua definição de uma caracterização. Nesse sentido, poderá referir o que distingue os problemas filosóficos dos problemas científicos e religiosos; as teorias filosóficas das teorias científicas, religiosas e artísticas, etc. É claro que tal caracterização nunca irá ser exaustiva nem pacífica, mas, concordemos ou não com ela, sempre clarifica aquilo que se tem em mente quando se usa tal conceito.

Utilização classificativa e valorativa de «arte»

Retomando o problema da definição de «arte», quero desde já esclarecer que o termo «arte» ou a expressão «obra de arte» são frequentemente usados em dois sentidos diferentes: o sentido classificativo e o sentido valorativo. No primeiro destes dois sentidos não se tem em conta se uma determinada obra de arte é boa ou não, mas apenas se cai ou não debaixo da extensão do conceito de arte. Pretende-se apenas estabelecer se um certo objecto deve ser classificado como obra de arte. Ao classificarmos um veículo como automóvel nada dizemos acerca do seu valor como automóvel. Mas, às vezes, proferimos frases como «isto sim, é um automóvel», em que o significado de «automóvel» não é o mesmo que o apontado anteriormente. Estamos, neste caso, perante um exemplo da utilização valorativa de «automóvel», uma vez que com esta expressão queremos manifestar de forma positiva a nossa apreciação do veículo em causa, tal como o fazemos em relação a uma obra de arte ao afirmar «este quadro sim, é uma obra de arte». Aqui não estamos a classificá-la como obra de arte, mas a avaliá-lo como obra de arte boa. Estes dois usos são frequentemente confundidos e é imprescindível tê-los em mente quando se discutem as diferentes teorias da arte.

2.2. Definições explícitas de «arte»: as teorias essencialistas

Irão ser aqui brevemente discutidas três teorias da arte essencialistas. Trata-se de teorias que defendem uma ideia de arte intuitivamente partilhada por muitas pessoas, apesar das dificuldades que, como iremos ver, revelam quando são criticamente avaliadas.

Mas antes de avançar precisamos de esclarecer em que consiste uma teoria essencialista da arte. As teorias essencialistas defendem que existe uma essência de arte, ou seja, que existem propriedades essenciais comuns a todas as obras de arte e que só nas obras de arte se encontram. Ora as propriedades essenciais são diferentes das propriedades acidentais. Uma propriedade é essencial se os objectos que a exemplificam não podem deixar de a exemplificar sem que deixem de ser o que eram. Uma propriedade é acidental se, apesar de ser realmente exemplificada pelos objectos, poderia não o ser. Isso significa que as propriedades essenciais da arte são aquelas propriedades que não podem deixar de se encontrar nas obras de arte. São, portanto, exemplificadas por todas as obras de arte, reais ou meramente possíveis. Mas uma definição essencialista exige também que tais propriedades sirvam para distinguir a arte de outras coisas que não são arte. Daí que se procurem apenas identificar as propriedades essenciais que sejam individuadoras da arte. Por exemplo, uma propriedade essencial das obras de arte é a de terem um autor (pelo menos). Mas ter um autor não é uma propriedade individuadora da arte porque outras coisas que não são arte têm também essa propriedade essencial, como é o caso dos artigos de opinião dos jornais. Não seria por aí que iríamos identificar as obras de arte. Ora, se há propriedades comuns a todas as obras de arte e individuadoras das obras de arte, é então possível dizer quais são as suas condições necessárias e suficientes; quer dizer, é possível fornecer uma definição explícita de arte. Contudo, é preciso reconhecer que nem todas as definições explícitas são essencialistas.

Teoria da arte como imitação

Esta é uma das mais antigas teorias da arte. Foi, aliás, durante muito tempo aceite pelos próprios artistas como inquestionável. A definição que constitui a sua tese central é a seguinte:

Uma obra é arte se, e só se, é produzida pelo homem e imita algo.
A característica própria desta teoria não reside no facto de defender que uma obra de arte tem de ser produzida pelo homem, o que é comum a outras teorias, mas na ideia de que para ser arte essa obra tem de imitar algo. Daí que seja conhecida como teoria da arte como imitação.

Vários foram os filósofos que se referiram à arte como imitação. Alguns desprezavam-na por isso mesmo, como acontecia com o conhecido filósofo grego Platão que, ao considerar que as obras de arte imitavam os objectos naturais, via essas obras como imagens imperfeitas dos seus originais. Ainda por cima quando, no seu ponto de vista, os próprios objectos naturais eram por sua vez cópias de outros seres mais perfeitos. Já o seu contemporâneo Aristóteles, mantendo embora a ideia de arte como imitação, tinha uma opinião mais favorável à arte, uma vez que os objectos que a arte imita não são, segundo ele, cópias de nada.

O que agora nos interessa, mais do que saber quem defendeu esta teoria, é avaliar o seu poder explicativo. Vejamos então os principais pontos que perecem favoráveis a ela:

Composição, de Jackson Pollock (1912-1956)
Adequa-se ao facto incontestável de muitas pinturas, esculturas e outras obras de arte, como peças de teatro ou filmes imitarem algo da natureza: paisagens, pessoas, objectos, acontecimentos, etc.
Oferece um critério de classificação das obras de arte bastante rigoroso, o que nos permite, aparentemente, distinguir com alguma facilidade um objecto que é uma obra de arte de outro que o não é.
Oferece um critério de valoração das obras de arte que nos possibilita distinguir facilmente as boas das más obras de arte. Neste sentido, uma obra de arte seria tão boa quanto mais se conseguisse aproximar do objecto imitado.
Um aspecto geral desta teoria mostra-nos que é uma teoria centrada nos objectos imitados. Ela exprime-se frequentemente através de frases como «este filme é excelente, pois é um retrato fiel da sociedade americana nos anos 60», ou como «este quadro é tão bom que mal conseguimos distinguir aquilo que o artista pintou do modelo utilizado».

Mas será uma boa teoria? Para isso temos de testar cada um dos aspectos atrás apresentados que são favoráveis à teoria, começando pelo primeiro.






A Escola de Atenas, de Rafael (1483-1520)
Como o que é afirmado no primeiro ponto é do domínio empírico, não precisamos de procurar muito para percebermos que, apesar de muitas obras de arte imitarem algo, são inúmeras aquelas que o não fazem. O que constitui a sua refutação inequívoca. Obras de arte que não imitam nada encontramo-las tanto na pintura como na escultura abstractas ou noutras artes visuais não figurativas. De forma ainda mais notória encontramo-las na literatura e na música. Em relação à música é até bastante improvável que haja alguma obra musical que imite seja o que for, apesar de haver quem se tenha batido pela música programática (música que conta uma história, ilustra um acontecimento ou evoca um cenário natural). Até porque evocar ou ilustrar com sons não é o mesmo que imitar, a não ser indirectamente. Conscientes disso, os defensores mais recentes da teoria da arte como imitação, acabaram por substituir o conceito de imitação pelo conceito mais sofisticado de representação. Assim já poderíamos dizer que as quatro primeiras notas da 5.ª Sinfonia de Beethoven não imitam directamente a morte a bater à porta, mas representam a morte a bater à porta. O mesmo se passaria com a literatura, da qual talvez não se possa dizer que imita mas que representa sempre algo que acontece no mundo. Mas, ainda assim, podemos perguntar: o que representam a pintura Composição (1946) de Jackson Pollock ou as Suites para Violoncelo Solo de Bach? Dificilmente diríamos que representam algo. Ficamos, deste modo, com uma teoria que não observa os requisitos anteriormente expostos acerca do que deve ser uma definição explícita, pois defende que uma condição necessária para algo ser arte é imitar, e isso não acontece com todas as obras de arte. Trata-se de uma definição que não inclui tudo o que deveria incluir, deixando assim muito por explicar.

Pormenor de O Jardim das Delícias, de Jerónimo Bosh (1450?-1516)
Em relação ao segundo aspecto, esta teoria deixa também muito a desejar. O que referi acerca do ponto anterior acaba também por desconsiderar o critério de classificação apresentado. Convém, portanto, realçar que o critério de classificação de arte proposto por esta teoria não pode ser bom, pois ficamos insatisfeitos ao verificar que há obras que são reconhecidamente arte e não são classificadas como tal. A conservar este critério, seriam as obras de arte que deveriam conformar-se à definição de arte e não o contrário. Mas acontece que nem esta nem nenhuma outra definição de arte disponível é suficientemente forte para nos fazer abandonar as nossas intuições de que certas obras são arte, ainda que tais definições as não classifiquem como tal.

Finalmente, o terceiro ponto também é muito discutível. Apesar de ficarmos muitas vezes positivamente impressionados com a perfeição representativa de algumas obras de arte, o seu critério valorativo falha porque muitas outras obras de arte não poderiam ser consideradas boas nem más, já que não imitam nada. Mas falha ainda por haver obras que imitam algo sem que nos encontremos alguma vez em condições de saber se a imitação é boa ou má. Basta pensar em obras que imitam algo que já não existe ou não é do conhecimento de quem as aprecia. Como podemos saber se A Escola de Atenas, de Rafael, reproduz com perfeição as figuras de Platão e Aristóteles ou o ambiente da Academia? Pior, como sabemos que o Jardim das Delícias, de Bosch, imita bem aquelas figuras estranhas e inverosímeis, admitindo que algo está a ser imitado? Como podemos saber se O Nascimento de Vénus, de Botticelli, é uma boa imitação, se é que, mais uma vez, algo é imitado? E não será abusivo afirmar que qualquer pintura figurativa tecnicamente apurada é melhor do que o tosco Auto-Retrato com Chapéu de Palha, de Van Gogh, ou do que todas as obras impressionistas? Segundo este critério Picasso seria, com certeza, um artista menor e teríamos de reconhecer que a fotografia é a mais perfeita de todas as artes. Só que não é isso que acontece. Vemos, assim, que também em relação ao critério valorativo esta teoria está longe de dar resposta satisfatória a todas as objecções que se lhe colocam.

O Nascimento de Vénus, de Sandro Botticelli (1445-1510)
Teoria da arte como expressão

Insatisfeitos com a teoria da arte como imitação (ou representação), muitos filósofos e artistas românticos do século XIX propuseram uma definição de arte que procurava libertar-se das limitações da teoria anterior, ao mesmo tempo que deslocava para o artista, ou criador, a chave da compreensão da arte. Trata-se da teoria da arte como expressão. Teoria que, ainda hoje, uma enorme quantidade de pessoas aceita sem questionar. Segundo a teoria da expressão






Auto-Retrato com Chapéu de Palha, de Van Gogh (1853-1890)
Uma obra é arte se, e só se, exprime sentimentos e emoções do artista.
Vejamos o que parece concorrer a favor dela:

São muitos e eloquentes os testemunhos de artistas que reconhecem a importância de certas emoções sem as quais as suas obras não teriam certamente existido. Mais do que isso, se é verdade, como parece ser, que a arte provoca em nós determinadas emoções ou sentimentos, então é porque tais sentimentos e emoções existiram no seu criador e deram origem a tais obras.
Também nos oferece, como a teoria anterior, um critério que permite, com algum rigor, classificar objectos como obras de arte. Com a vantagem acrescida de classificar como arte todas as obras que não imitam nada, o que acontece frequentemente na literatura e sempre na música e na arte abstracta.
Mais uma vez oferece um critério valorativo: uma obra é tanto melhor quanto melhor conseguir exprimir os sentimentos do artista que a criou.

sem título, de Yves Klein
Uma teoria como esta manifesta-se frequentemente em juízos como «Este é um livro exemplar em que o autor nos transmite o seu desespero perante uma vida sem sentido» ou como «O autor do filme filma magistralmente os seus próprios traumas e obsessões».

Mas também ela se irá revelar uma teoria insatisfatória. As razões são semelhantes às que apresentei contra a teoria da arte como imitação, pelo que tentarei aqui ser mais breve.

O primeiro ponto apresenta várias falhas. Desde logo, é também empiricamente refutado porque há obras que não exprimem qualquer emoção ou sentimento. Podemos até admitir que o emaranhado espesso de linhas coloridas do quadro de Pollock exprime algo ao deixar registados na tela os seus gestos (é geralmente incluído na corrente artística conhecida como expressionismo abstracto). Mas podemos dizer o mesmo da maior parte dos quadros de Yves Klein, Mondrian ou de Vasarely? O grande compositor do nosso século, Richard Strauss, autor de vários poemas sinfónicos, como o célebre Assim Falava Zaratustra, esclarecia que as suas obras eram fruto de um trabalho paciente e minucioso no sentido de as aperfeiçoar, eliminando desse modo os defeitos inerentes a qualquer produto emocional. E que dizer da chamada música aleatória (música feita com o recurso a sons produzidos ao acaso)? Além disso, mesmo que uma obra de arte provoque certas emoções em nós, daí não se segue que essas emoções tenham existido no seu autor. Se a ingestão de dez copos de vinho seguidos provocam em mim o sentimento de euforia, daí não se segue que o vinicultor que produziu o vinho estivesse eufórico. Trata-se, portanto, de uma inferência falaciosa. Tal como na definição de arte como imitação, o mesmo se passa aqui, pois acaba por não se verificar a condição necessária segundo a qual todas as obras de arte exprimem emoções. É, assim, uma má definição.



Quasarte, de Victor Vasarely
A deficiência em relação ao critério de classificação é praticamente a mesma apontada à teoria da imitação. A única diferença é que, neste caso, uma maior quantidade de objectos podem ser classificados como arte. Mas nem todas as obras de arte são, de facto, classificadas como tal.

Sobre o critério de valoração, também as objecções são idênticas às da teoria da imitação. Se observarmos este critério, então as obras de arte que não podem ser consideradas boas nem más são inúmeras. Como podemos nós saber se uma determinada obra exprime correctamente as emoções do artista que a criou, quando o artista já morreu há séculos? Na tentativa de apurar até que ponto uma obra de arte é boa, muitos estudiosos defensores desta teoria lançaram-se na pesquisa biográfica do artista que a criou, pois só assim estariam em condições de compreender os sentimentos que lhe deram origem. Alguns deles, como o famoso pai da psicanálise, Sigmund Freud, até se aventuraram a sondar as profundezas da psicologia do artista, sem o que uma correcta avaliação da obra não seria possível. Freud foi ao ponto de o fazer com um artista morto há séculos, como é descrito no seu livro Uma Recordação de Infância de Leonardo da Vinci. Supondo que, como já tem acontecido, a obra em causa tinha sido erradamente atribuída a outro autor, essa obra deixaria de poder ser considerada obra-prima? E as obras de autores anónimos ou desconhecidos não são boas nem más? E como avaliar uma obra de arte colectiva ou a interpretação de uma obra musical? O que conta aqui são as emoções do artista criador ou as do artista intérprete (ou dos artistas intérpretes, como sucede com a interpretação da Segunda Sinfonia de Mahler, a qual chega a exigir perto de 250 intérpretes em palco)? Enfim, todas estas perguntas são demasiado embaraçosas para a teoria da expressão.

Composição com Vermelho, Amarelo e Azul, de Piet Mondrian (1872-1944)
Teoria da arte como forma significante

Verificando que a diversidade de obras de arte é bem maior do que as teorias da imitação e da expressão fariam supor, uma teoria mais elaborada, e também mais recente, conhecida como teoria da forma significante (abreviadamente referida como «teoria formalista»), decidiu abandonar a ideia de que existe uma característica que possa ser directamente encontrada em todas as obras de arte. Esta teoria, defendida, entre outros, pelo filósofo Clive Bell, considera que não se deve começar por procurar aquilo que define uma obra de arte na própria obra, mas sim no sujeito que a aprecia. Isso não significa que não haja uma característica comum a todas as obras de arte, mas que podemos identificá-la apenas por intermédio de um tipo de emoção peculiar, a que chama emoção estética, que elas, e só elas, provocam em nós. Por esta razão a incluo nas teorias essencialistas. De acordo com a teoria formalista de Clive Bell

Uma obra é arte se, e só se, provoca nas pessoas emoções estéticas.
Note-se que não se diz que as obras de arte exprimem emoções, senão estar-se-ia a defender o mesmo que a teoria da expressão, mas que provocam emoções nas pessoas, o que é bem diferente. Se a teoria da imitação estava centrada nos objectos representados e a teoria da expressão no artista criador, a teoria formalista parte do sujeito sensível que aprecia obras de arte. Digo que parte do sujeito e não que está centrada nele, caso contrário não seria coerente considerar que esta teoria é formalista.

Tendo em conta a definição dada, reparamos que a característica de provocar emoções estéticas constitui, simultaneamente, a condição necessária e suficiente para que um objecto seja uma obra de arte. Mas se essa emoção peculiar chamada «emoção estética» é provocada pelas obras de arte, e só por elas, então tem de haver alguma propriedade também ela peculiar a todas as obras de arte, que seja capaz de provocar tal emoção nas pessoas. Mas essa característica existe mesmo? Clive Bell responde que sim e diz que é a forma significante.

Frases como «Este quadro é uma verdadeira obra prima devido à excepcional harmonia das cores e ao equilíbrio da composição», ou como «Aquele livro é excelente porque está muito bem escrito e apresenta uma história bem construída apoiada em personagens convincentes e bem caracterizadas», exprimem habitualmente uma perspectiva formalista da arte.

Para já, esta teoria parece ter uma grande vantagem: pode incluir todo o tipo de obras de arte, inclusivamente obras que exemplifiquem formas de arte ainda por inventar. Desde que provoque emoções estéticas qualquer objecto é uma obra de arte, ficando assim ultrapassado o carácter restritivo das teorias anteriores.

Mas as suas dificuldades também são enormes.

Em primeiro lugar, podemos mostrar que algumas pessoas não sentem qualquer tipo de emoção perante certas obras que são consideradas arte. Quer dizer que essas obras podem ser arte para uns e não o ser para outros? Nesse caso o critério para diferenciar as obras de arte das outras de que serviria? Teríamos, então, obras de arte que não são obras de arte, o que não faz sentido. Também não é grande ideia responder que quem não sente emoções estéticas em relação a determinadas obras não é uma pessoa sensível, como sugere Bell, o que parece uma inaceitável fuga às dificuldades.
Uma outra dificuldade é conseguir explicar de maneira convincente em que consiste a tal propriedade comum a todas as obras de arte, a tal «forma significante», responsável pelas emoções estéticas que experimentamos. Clive Bell refere, pensando apenas no caso da pintura, que a forma significante reside numa certa combinação de linhas e cores. Mas que combinação é essa e que cores são essas exactamente? E em que consiste a forma significante na música, na literatura, no teatro, etc.? A ideia que fica é que a forma significante não serve para identificar nada. Não se trata verdadeiramente de uma propriedade, pois a forma significante na pintura consiste numa certa combinação de cores e linhas, mas na música, na literatura, no cinema, etc., já não podem ser as cores e linhas a exemplificar a forma significante. Não temos, assim, uma propriedade mas várias propriedades. É certo que diferentes propriedades podem provocar o mesmo tipo peculiar de emoções nas pessoas, mas chamar a diferentes propriedades "forma significante" é de tal forma vago que não se imagina o que poderia constituir uma contra-exemplo a esta definição. Também a resposta de que a forma significante é a propriedade que provoca em nós emoções estéticas, depois de dizer que as emoções estéticas são provocadas pela forma significante é não só inútil mas decepcionante, já que se trata de uma falácia: a falácia da circularidade.
E agora?

Pelo que se viu, nenhuma das teorias aqui discutidas parece satisfatória. Tendo reparado nas insuficiências das teorias essencialistas, alguns filósofos da arte, como Morris Weitz, abandonaram simplesmente a ideia de que a arte pode ser definida; outros, como George Dickie, apresentaram definições não essencialistas da arte, apelando, nesse sentido, para aspectos extrínsecos à própria obra de arte; outros ainda, como Nelson Goodman, concluíram que a pergunta «O que é arte?» deveria ser substituída pela pergunta mais adequada «Quando há arte?». Serão estas teorias melhores do que as anteriores? Aí está uma boa razão para não darmos por terminada esta tarefa.

Aires Almeida
Trabalho realizado no âmbito da Acção de Formação "O Pensamento Crítico e a Tradição Socrática na Sala de Aula", leccionada por Desidério Murcho.

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