AJUDE O BLOG

COLABORE COM QUALQUER VALOR PARA MANTERMOS ESTE BLOG SÃO 10 ANOS PIX  paulovas@gmail.com ,,,502.644.. cx  paulo a c vasconcelos

segunda-feira, 25 de abril de 2011

ESTANTE Roniwalter Jatobá e a literatura proletária

ESTANTE
Roniwalter Jatobá e a literatura proletária

Por Luiz Ruffato em 30/6/2009

Apresentação de Contos Antológicos de Roniwalter Jatobá, 176 pp., Editora Nova Alexandria, São Paulo, 2009; integrante da "Coleção Obras Antológicas", que reúne contos de Jorge Miguel Marinho, Silviano Santiago, Domingos Pellegrini e um volume poemas antológicos de Solano Trindade; lançamento em 1/7/2009 na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros), em São Paulo; intertítulos do OI

Comentando a obra de Oswaldo França Júnior, João Luiz Lafetá observou que o autor mineiro valorizava, em seus romances, o trabalho, "coisa rara numa literatura que quase sempre o desprezou e evitou representá-lo" [in "O romance atual" apud A dimensão da noite. São Paulo, Duas Cidades/Editora 34, pág. 251]. Curiosa questão o crítico paulista levantou. Se nos debruçarmos sobre a produção ficcional brasileira ao longo do tempo, poucas vezes vamos flagrar personagens exercendo algum tipo de atividade laborativa. Em geral, os escritores nacionais, bem-nascidos, satisfazem no próprio âmbito da classe média as suas necessidades de criação – nicho onde o trabalho nem sempre é bem visto. Quando extrapolam os seus horizontes, caem na tentação ou de idealizar o trabalhador, exibindo a exploração de que é vítima para combater politicamente sua opressão, ou de romantizar a figura do malandro ou do bandido, como pretenso contraponto rebelde às injustiças da sociedade, conforme emenda o próprio Lafetá.

Isso porque, talvez, a literatura de boa qualidade exija uma dose mínima de veracidade – e são escassos os autores brasileiros conhecedores das mazelas da classe trabalhadora. Roniwalter Jatobá, mineiro de Campanário, radicado em São Paulo desde 1970, é uma dessas exceções. Imigrante, foi motorista de caminhão, operário metalúrgico e gráfico, antes de se formar em jornalismo. A questão do trabalho ocupa o centro de suas preocupações, desde a estréia em 1976, com Sabor de Química, até o recente Paragens, de 2004, passando pela importantíssima antologia Trabalhadores do Brasil, de 1998, por ele organizada. Mas, vivência apenas não faz boa literatura. O que torna Jatobá um grande escritor é sua capacidade de transformar a matéria bruta da vida em Arte. Ou, como melhor traduz a crítica literária Cecília Almeida Salles: "o ato criador manipula a vida em uma permanente transformação poética para a construção da obra. A originalidade da construção encontra-se na unicidade da transformação: as combinações são singulares" [in Gesto inacabado. São Paulo, Fapesp/Annablume, 1998, pág. 89].

Fragmentos de uma narrativa

Jatobá praticamente instaura a literatura proletária brasileira – e sintomaticamente conta com escassos herdeiros. Antes, o trabalhador urbano pode ser entrevisto em um que outro romance – O cortiço, de Aluísio Azevedo, de 1890, Os corumbas, de Amando Fontes, de 1933, O moleque Ricardo, de José Lins do Rego, de 1935 – ou em um que outro conto – de autores como Mário de Andrade e Alcântara Machado. Contemporaneamente, alguns poucos se aventuraram no tema. Mas, sem dúvida, Jatobá é pioneiro ao alicerçar no operário a sua obra. Embora o Brasil tenha sido essencialmente rural até a década de 50, desde a virada do século XIX para o XX as cidades mais importantes contavam com estabelecimentos industriais – haja visto que a primeira greve geral foi convocado ainda em 1906, pelo à época forte movimento anarquista. Entretanto, apenas no final da década de 70 o proletariado ganhará espaço na literatura, não mais como símbolo idealizado, mas como personagem complexo e veraz.

Pelas páginas dos sete livros de Jatobá (três coletâneas de contos, três novelas e um romance), obsessivamente reescritas, desfila a brutal história recente do país, de industrialização a todo custo. A partir da década de 50, quando o presidente Juscelino Kubitschek implementa o "desenvolvimentismo" – "cinqüenta anos em cinco" – inicia-se um fluxo migratório sem precedentes, na direção Norte-Sul, que irá se acirrar nas décadas de 60 e 70, e que só agora começa a se amainar. Milhões de pessoas empurradas, de uma hora para outra, dos confins do sertão para servir de mão-de-obra barata à indústria de construção e de transformação de São Paulo. Pressionados ora pela seca atávica do Nordeste, ora pela miséria ingente de Minas Gerais, ora pela falta de perspectivas nos outros estados, os migrantes trocavam, do dia para a noite, o espaço amplo pela exigüidade, a economia de subsistência pelo salário, o imaginário rural pelo urbano. São os frutos desse rompimento brusco que emergem da ficção de Jatobá.

Mas, aqui o que diferencia o autor de um historiador, um antropólogo ou um sociólogo: o escritor, demiurgicamente, insufla alma aos personagens, cinzela seus rostos, dá-lhes identidade, arranca-os do anonimato a que foram relegados. E essa construção se faz através do alinhavamento de um estilo próprio, reconhecível nas várias camadas das reescrituras a que submete seus livros. A inquietação formal de Jatobá, que de certa maneira reflete sua inquietude com as coisas do mundo, pode ser observada, por exemplo, na reapropriação que faz de suas histórias. Só a título de exemplo, a pequena novela "Paragens", seu mais recente título [Paragens reúne três novelas de Roniwalter Jatobá: "Pássaro selvagem", "Paragens" e "Tiziu" e foi publicado pela Boitempo Editorial, São Paulo, 2004. "Pássaro selvagem" foi editado originalmente em 1985 e "Tiziu" em 1994], é a reelaboração de um conto, "Via sacra", publicado originalmente em 1976 e que ainda aparece na terceira edição de Sabor de química [Belo Horizonte, Oficina de Livros, 1991]. A comparação entre os dois textos dá-nos uma pálida idéia do rigoroso processo de criação de Jatobá, que não se satisfaz com a mera transposição do real para a ficção, mas que, ao tentar apreendê-lo, percebe a sua precariedade. O mesmo método pode ser reconhecido no conto "A mão esquerda", de 1978, que contém a semente da novela Tiziu, de 1994. Ou ainda em "Margem", que, dividido, inicialmente, em quatro partes, costurava a edição original de Ciriaco Martins e outras histórias, e que, a partir de Sabor de química, constrói-se em fragmentos de uma mesma narrativa [v. Ciriaco Martins e outras histórias. São Paulo, Alfa-Ômega, 1977].

Subúrbio industrial

E reescrever, para Jatobá, significa buscar uma expressão própria, capaz de traduzir a realidade que o incomoda. Fosse outro autor, talvez chafurdasse no preconceito – que transborda das páginas dos ficcionistas brasileiros – de retratar a miséria social utilizando-se de uma linguagem igualmente pobre, como se, agindo assim, aproximasse o leitor da realidade que pretende expor. Nos contos de Jatobá há uma perfeita simbiose entre fundo e forma – a história do proletariado se constrói sem reducionismo, sem afetação. [Rubem Mauro Machado, comentando Crônicas da vida operária, denuncia sua surpresa, ao afirmar que Jatobá "consegue uma simbiose tão perfeita entre a língua oral e a língua literária que o leitor menos avisado pode não se dar conta que ‘na verdade ninguém fala assim" (in "Roniwalter Jatobá: enfim, literatura proletária". "Suplemento da Tribuna" – Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 30/09 e 01/10/1978, pág. 6)] A um leitor mais atento deverá aflorar a força da narrativa construída em moldes bíblicos, onde a denúncia ou a lamentação não se encontra nunca dissociada da poesia. Porque Jatobá nos explicita que, por mais cinza a vida suburbana, todos nós, por sermos humanos, perseguimos, ao fim e ao cabo, a mesma coisa: a felicidade. E esta se encontra no horizonte do improvável.

Uma palavra ainda sobre a organização desse livro. Misturados, aqui encontram-se todos os contos de Crônicas da vida operária e todos os da segunda parte [da primeira parte constam histórias ambientadas no universo rural e preferia, para esta edição, concentrar a atenção no imaginário suburbano] da terceira edição de Sabor de química (que basicamente reúne as narrativas de Crônicas nordestinas/Sabor de química, de 1976 e Ciriaco Martins e outras histórias, de 1977), menos "Via sacra", que fecha o volume, bastante modificado, com o título de "Paragens". Da chegada do imigrante (mineiro?, nordestino?, pouco importa) ao subúrbio industrial de São Paulo, o peito explodindo em esperanças, a uma espécie de autoprestação-de-contas, quarenta anos depois, dentro de um trem de metrô, a história de um projeto fracassado – e se se frustra a expectativa pessoal, é a própria idéia de nação que naufraga.

Andy Warhol é pai eterno da pop arte - NovaE - Nova Consciência e Cibercultura

Andy Warhol é pai eterno da pop arte - NovaE - Nova Consciência e Cibercultura

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Abril pro Rock 2011 começa nesta sexta com tradicional noite do metal

A 19ª edição do Abril pro Rock começa nesta sexta-feira (15), com a tradicional noite do metal. O evento acontece no Chevrolet Hall, no Complexo de Salgadinho, em Olinda. A principal atração desta quinta é a banda americana The Misfits. Com mais de 30 anos de estrada, o baixista Jerry Only é o único que faz parte da formação original da banda. Os dois outros músicos, Dez Cadena (guitarra) e Robo (bateria), foram da Black Flag.

Outra atração é a novata Musica Diablo. O grupo de thrash metal foi criado no começo do ano passado e tem como vocalista o americano Derrick Green, da Sepultura, com músicos de algumas das importantes bandas de São Paulo, Andre NM (Nitrominds), André Curci (Threat).

PERNAMBUCANAS - Cangaço e Desalma são as bandas pernambucanas que marcam presença na noite do metal. Diferentemente da maioria das bandas do gênero, os dois grupos só compõem em português. Os grupos também compartilham outras semelhanças como não ter álbum ainda lançado, além de enveredarem pelo death metal, mas abrindo espaço para outras influências.

Confira a programação completa do festival:

15.04
20h
The Misfits (EUA)
D.R.I. (EUA)
Musica Diablo (SP)
Torture Squad (SP)
Violator (DF)
Desalma
Facada (CE)
Cangaço

16.04 – APR Club
23h
Boss in Drama (SP)
MiM (SP)
Voyeur (PE)

17.04
17h
The Skatalites (Jam)
Eddie (PE)
Arnaldo Antunes (SP)
Karina Buhr (PE)
Tulipa Ruiz (SP)
Chicha Libre (EUA)
Holger (SP)
Mamelungos (PE)
Feiticeiro Julião (PE)
17h Abertura dos Portões

20.04 - APR Club
O Bloco do Eu Sozinho (RJ)

29.04 – APR Club
Wander Wildner (RS) e Caravana do Delírio (PE)
Ave Sangria (PE) e Anjo Gabriel (PE)

30.04 – APR Club
Matanza (RJ)
Diablo Motor (PE)

08.04 – APR Club
Zé Cafofinho & as Correntes (PE)
Sacal (PB)

09.04 – APR Club
Cerebro Eletrônico (SP)
Volver (PE)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Filme turco quebra a sisudez da competição principal em Berlim

JULIA DÓCOLAS
Direto de Berlim
A disputa acirrada pelo Urso de Ouro no Festival de Berlim geralmente é marcada por filmes densos, sérios e polêmicos, que muitas vezes destoam do cinema convencional - e Hollywoodiano - que o grande público está acostumado a assistir. O longa Our Grand Despair quebra essa corrente de grandes reflexões e apresenta um filme simples, sobre a importância da amizade e companheirismo, como a equipe do filme apontou no encontro com a imprensa nesta quarta-feira (16).
O diretor turco Seyfi Teoman traz a história de dois grandes amigos da época do colégio, Ender (Ilker Askum) e Cetin (Fatih Al), que hoje estão na casa dos 30 e poucos anos e moram juntos. A chegada de Nihal (Gunes Sayin), irmã mais nova de um amigo dos dois, sacode a vida deles: ambos se apaixonam por ela. A história se passa na urbana Ankara e foge da característica de muitos filmes internacionais que enfatizam a cultura e tradições do país.
"O pessoal de Ankara é modesto, companheiro e tranquilo, ao mesmo tempo que a cidade é moderna e pode representar a Turquia de hoje. Sua arquitetura e modernidade é muito particular. O filme não poderia se passar em outro lugar", explicou Teoman.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Mamá-araña: Louise Bourgeois en Buenos Aires

La gran diosa de la escultura, la madre de las madres de las formas, se presenta por primera vez de forma completa en la región, y lo hace en Buenos Aires. Se trata de la increíble escultora Louise Bourgeois y de “El retorno de lo reprimido”, la muestra que se expondrá en la Fundación Proa (Pedro de Mendoza 1929) a partir del sábado próximo y hasta julio.

Fruto de un esfuerzo de producción y de costo gigante (los 75 trabajos, algunos inmensos, vienen desde distintas partes del mundo), los amantes del arte, y en realidad todas las personas, deberíamos aprovechar y acercarnos hasta La Boca, a conocer el original mundo íntimo de Bourgeois. Porque se trata de una de las mayores artistas de toda la historia del arte y de una oportunidad nada común en estas tierras, ya que estas obras moran en Europa o Norteamérica.

El combo es imperdible: esculturas raras, grandes, emblemáticas + una artista fundamental y muy original del siglo XX= un viaje intergaláctico de saber y placer. Y una gran posibilidad de auto-conocimiento , como pasa cuando uno observa una obra de arte genuina.

Pero debo advertirle: antes de entrar a la exposición, prepárese. Porque los trabajos son densos, traumáticos, emotivos; no sólo por cómo están realizados sino porque tocan conflictos comunes a todos los seres humanos, como las relaciones entre padres e hijos (el Edipo del que nadie puede escapar).

Y tratan de sexo, pero en estado de angustia . Digamos que las obras de Bourgeois reflejan eso que todos reprimimos. Hacen conscientes los deseos inconscientes. Preservan sin pulir las grandes pulsiones que uno descarta pero que siempre subyacen, persisten, retornan; y aparecen en el momento menos pensado.

Le repito, ármese emocionalmente antes de entrar a esta apasionante aventura que es la obra de Bourgeois. Usted se dará cuenta cuando enfrente las obras, que la artista no podía ser alguien sencillo y prístino.

No era Heidi, no era Warhol, no era Minujín . Era, más bien, la Freud del arte; la Van Gogh de la escultura; la Kafka de la plástica contemporánea. Y, ¡oh, sorpresa! en pleno siglo XX, el genio escultórico de la psiquis hecha forma fue una mujer.

Debe enterarse también de esto: Bourgeois era hiper-sensible, frágil, depresiva. Torturada. Sufría de crisis nerviosas si no hacía sus esculturas. Sufría de impulsos de hostilidad, de auto-castigo. Era un gran “paquete” psíquico, una gran reserva de energías que canalizar por algún lado, para sobrevivir; que canalizar a través del arte.

“He estado en el infierno y he vuelto. Y les digo una cosa: fue fantástico”, comentaba la escultora en uno de sus textos (muchas veces ella misma se pensó más como escritora que como artista; de hecho, hasta escribió para Art Forum, la famosa revista de arte).

Quien fue su psicoanalista durante más de treinta años, Henry Lowenfeld (discípulo directo de Freud), pensaba que el principal problema de Bourgeois era su incapacidad para aceptar la propia agresión. “No olvido ni perdono, es el lema del que se alimenta mi obra”, escribía ella por entonces. Decía que para crear obras debía internarse en los “corredores de la memoria” y “transferir a una escena de hoy, emociones que tuve hace cuarenta años …” “Todos los días uno tiene que abandonar su pasado o aceptarlo; y entonces, si no puede aceptarlo, se hace escultor”, escribió alguna vez la escultora (ver recuadro).

Por eso no debe esperar ver en la muestra paletas felices ni temáticas livianas. Lo anuncian los trabajos y sus títulos: Maman (una araña gigantesca, de 10 metros de altura y 22 mil kilos, monumental oda a su madre hecha en bronce, hierro y mármol); Habitación roja (padres) , un símil de habitación a tamaño real que intenta mostrar todo aquello que ocurría en el dormitorio parental con adulterios y angustias sobrevolando la pareja; Arco de histeria, en bronce, de carácter erótico-seductor pero también evidencia de una torsión dolorosa; Jano florido , en bronce, un falo doble, de tamaño grande, partido, segmentado, que cuelga del techo; Destrucción del padre, escultura-instalación de los 70´s, montones de pedazos de falos naranja-rojizos, enfrentados entre sí como cielo y tierra; y en medio, una mesa con el padre destrozado). Sobre esta última obra, Eleanor Munro, quien estudió a la artista, escribió: “Está la mesa de una cena y se ve que pasan toda clase de cosas. El padre está fanfarroneando, contándole al público cautivo lo grande que es, la cantidad de cosas maravillosas que hizo, cuánta gente mala rebajó hoy. Pero esto sigue un día tras otro. En los niños crece un resentimiento. Un día al fin se enojan. Se masca la tragedia. El padre ha repetido la pieza una vez más. Los niños lo agarran y lo ponen sobre la mesa. Y se convierte en comida. Lo despiezan, lo desmembran. Se lo comen. ¡Es, como verás, un drama oral! Lo irritante era su continuo agravio verbal. Así que fue liquidado: tal como él había liquidado a sus hijos”. El curador de la muestra, Philip Larrat- Smith, habla de una “conmemoración del acto de destrucción recreándolo”.

Conflicto. Qué mejor palabra para definirla. Louise Bourgeois. Misteriosa, sabia, táctil. Golpea, roe, raya, corrompe, destruye los materiales, los hace nacer. Los ataca (“Cuando no ataco no me siento viva”). Necesitó hacer catarsis; la aliviaba. Necesitó sacar fuera de sí una complejidad tal que no le permitía siquiera dormir. Pero sí amar. En su vida, a su manera, fue madre y compañera, esposa.

Uno se podría preguntar, ¿pero cómo sobrevivir a esto, a una angustia tan inmensa que todo lo inunda ….? ¿Y qué la ayudó más a Bourgeois, la escultura o el amor? Las respuestas, en las obras.

domingo, 13 de março de 2011

Conto publicado no livro Felicidade Clandestina, Ed. Rocco

Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartasfeiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.

No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.

E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.

Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça – eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável – e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.

Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.

Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga – talvez atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel – resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.

Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas – à idéia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos
nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha – mas ah! Deus nos ajudaria! não choveria! Quanto ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho, que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.

Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.

Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil – fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.

Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.

Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos, já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

Conto publicado no livro Felicidade Clandestina, Ed. Rocco

quarta-feira, 9 de março de 2011

Poesia e romantismo

do Jornal do Comércio-Recife PE em 09.03.2011


Para manter a tradição da festa, blocos reuniram gente de todas as idades e encheram de lirismo foliões que estiveram no fim de tarde e noite de segunda no Bairro do Recife

E como manda a tradição, a Segunda-Feira de Carnaval é o dia de transformar o Bairro do Recife na passarela dos blocos líricos. Este ano, não foi diferente. Não teve chuva que atrapalhasse a festa. O que se viu nas ruas do Centro foi um encontro de todas as idades. Gente que só queria cantar e seguir atrás da agremiação preferida.
Nos versos decorados pelos antigos foliões, lirismo, romantismo e muita poesia. “O melhor do Carnaval de Pernambuco é seguir atrás de uma orquestra de pau e corda. Quando acaba o desfile de uma, já sigo atrás de outra agremiação. Fico até o último acorde. Mesmo com essa chuva toda estamos aqui”, avisava o turista carioca Frederico de Araújo.

O desfile teve início às 16h. Entre outros, apresentaram-se Eu Quero Mais, O Bonde, Bloco das Flores, Confete e Serpentina, Blocos das Ilusões e Batutas de São José.

“A gente faz isso por amor à tradição. Não temos nenhuma ajuda do poder público e estamos resistindo ao abandono. A tradição é o nosso combustível. A chuva sempre prejudica o espetáculo. Mas vamos em frente”, disse José Marcolino da Silva de Lima, 45 anos, um dos integrantes do Batutas.

No palco do Marco Zero, cada agremiação tinha direito a 10 minutos para fazer a exibição. Houve também desfile na Praça do Arsenal.

O fim de tarde na segunda-feira, no Bairro do Recife, também foi marcado por muita confusão e correria. Vários furtos foram registrados pela Polícia Militar. Até as 19h, 15 adolescentes tinham sido apreendidos e liberados após serem revistados. À tarde, um princípio de incêndio foi registrado no palco do Marco Zero. O problema foi contornado rapidamente. Não houve feridos.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Morre o médico do corpo e do pensamento humano:Moacir Scliar



"Não preciso de Silêncios"assim falou Scliar.O poeta clínico da vida, debruçado sobre a literatura,encantou-se na morte.Deixou-nos, deixando seu pensamento, sua obra, farta de humanismo. Aparentemente em polos opostos- medicina e literatura, as duas não se contradizem em sua obra, ao contrário, se tecem juntas e se complementam como ajuste e compreensão do homem e o mundo.O senhor da gentileza, deixa-nos um grande legado, suas obras , sua poesia - a das dores do homem, expostas em sua trama literária. Trouxe-nos as dores e as histórias do povo, respeitou a oralidade e tomou-a para bordar sua literatura.Seus prêmios foras poucos, três Jabutis, mas ainda foram pouco para a dimensão de sua obra.Um dos poucos escritores brasileiros conhecidos mundialmente, citado pela critica americana como um dos cem maiores escritores e que trabalha com a temática judaica.Seus contos lembram Kafka.Seu passeio literário passa pelo romance, contos ensaio, colunista.Sobe mais uma folha humana ascende ao espaço e aO HUMUS da terra.

CORPO, MAR E FACA - POESIA - PAULO VASCONCELOS -

  CORPO, MAR E FACA - POESIA - PAULO VASCONCELOS -LIVRO KINDLE -AMAZON   LANÇAMENTO HOJE LIVRO -CORPO, MAR E FACA - PAULO VASCONCELOS KINDLE...