segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Anita, um ícone em mutação




[Photo]Mostra refaz a trajetória da pintora em uma centena de obras. Por Camila Alam
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Em 1917, o centro de São Paulo, precisamente a rua Líbero Badaró, recebia a exposição individual da artista Anita Malfatti, nascida em dezembro de 1899. Numa capital ainda provinciana, a insatisfação com sua arte manifestada por críticos e espectadores viria a perseguir a pintora durante boa parte de sua trajetória. Hoje, quase cem anos depois, a produção de Anita é celebrada na Retrospectiva Anita Malfatti, realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil, de Brasília, entre 22 de fevereiro e 25 de abril.

Inspiração para o movimento modernista no Brasil, a exposição de 1917 revelou uma personalidade artística ainda repudiada por familiares. Antes dedicada à escola acadêmica, tendo sua mãe como professora, ela seguia uma tendência naturalista-impressionista. Era ligada à família, que custava a ver o futuro da jovem solteira, deficiente por causa de uma atrofia no braço e na mão direita. Após viagens aos Estados Unidos e Alemanha, onde deixou de lado a pintura clássica, apresentou em São Paulo algumas de suas peças mais significativas, como A Boba, A Amiga e O Homem Amarelo, inspiradas no expressionismo alemão e criadas entre 1915 e 1916.

“Fala-se em Lasar Segall ou Belmiro de Almeida, mas sem dúvida ela foi a pioneira do movimento modernista no Brasil. Nenhum deles causou tanta polêmica como Anita com esta exposição de 1917”, diz a curadora Luzia Portinari Greggio, sobrinha de Candido Portinari e estudiosa da vida e obra da artista. É desta exposição uma das histórias emblemáticas da trajetória da pintora, que recebeu extensa crítica do escritor Monteiro Lobato. O texto fez com que alguns quadros recém-comprados na mostra fossem devolvidos, outros, destruídos. Publicada no jornal O Estado de S. Paulo, a crítica provocou efeito devastador tanto à exposição quanto à artista, morta em 1964.

“Pintaram Lobato como um inimigo e ela como mártir, mas tem muita lenda nessa história. Em momento algum ele a critica, mas a um período e ao papel da mulher. Achava que Anita não deveria fazer modernismos”, completa a curadora. Passado este momento e, mais tarde, a Semana de Arte Moderna de 1922, Anita junta-se a outros artistas no chamado “retorno à ordem”, no qual novamente a influência europeia a leva à pintura de interiores e nus, temas recorrentes do período entreguerras. São desta fase as telas Interior de Mônaco (1925) e Interior de Igreja (1924), ambas expostas no CCBB. Neste período, a decisão por manter uma postura menos polêmica a fez se voltar a temas comerciais. Decide então lecionar novamente e sobrevive pintando florais e retratos acadêmicos.

A mostra brasiliense, com cerca de 120 peças, percorre todas as fases da artista, que, em suas últimas produções, quis pincelar sem amarras. “Tomei a liberdade de pintar a meu modo”, dizia ela, cuja frase foi tema de exposição entre as décadas de 1940 e 1950. Neste percurso surgiram imagens inusitadas, que pouco lembram a jovem expressionista. Colheita de Algodão (1941) e Casamento na Roça (c. 1940) integram este período, ambas também expostas em Brasília. No final da vida, recolhida em uma chácara em Diadema, Grande São Paulo, Anita se dedicou a temas religiosos e festas populares. Para a curadora Greggio, a comemoração dos 120 anos serve para homenagear a ousadia de uma mulher em busca de seu sonho. “Eu a percebo como um ícone injustiçado. Muitos gênios são reavaliados e exaltados com o passar do tempo. É o caso dela.”

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