sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O Garoto da Bicicleta, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

por Manuela Santos (28/11/2011)
em Cinema




Acompanhar a trajetória de um menino de 12 anos, Cyril (incrivelmente interpretado por Thomas Doret), abandonado em um orfanato sem nem ser avisado pelo próprio pai — que, além de tudo, vende a bicicleta do filho antes de fugir –, não é nada fácil. Principalmente porque o garoto, como faria qualquer criança, continua na busca pelo amor do pai, que o espectador mais astuto já sabe que não será encontrado.

É bem compreensível a resistência do menino em aceitar a renúncia do pai, mas ainda assim assistir aos efeitos colaterais que recaem sobre Cyril dói demais. Além da decepção, a agressividade é o primeiro deles, seguido de um desdém ambíguo em relação àqueles que tentam ajudá-lo. Ambíguo porque quem pede à desconhecida que resgata sua bicicleta para que o receba nos finais de semana é ele mesmo e, depois que ela inexplicavelmente aceita o pedido e se torna devota ao menino (prefere-o ao namorado), ele demonstra toda sua rebeldia e ameaça a trocar de tutor, optando por um rapaz que vive de delitos mas que tem uma origem semelhante à sua e tenta seduzi-lo para o mau caminho.

É um filme cheio de “quases”: o menino quase fica sem a bicicleta diversas vezes, quase se rende ao mundo dos crimes e quase desistimos de acreditar que ele ainda tem solução. Eu confesso que suspirei aliviada todas as vezes em que esses “quases” não se concretizaram. A esperança vem da força que a já não desconhecida Samantha (Cécile de France – a mesma, mas amadurecida, de Um lugar na platéia) tem para lidar com as durezas na vida do menino; é como se ela tivesse uma cartilha indicando as melhores atitudes em cada momento e conseguisse seguir tudo à risca sem deixar as emoções atrapalharem o processo. Uma mãe não conseguiria tal feito. Para ela, não deve haver ilusões: é impressionante o momento em que faz o pai dizer na cara no menino que não o procurará, desfazendo a enganação prévia de que ligaria para o filho no próximo final de semana. Duro, com certeza, mas necessário.

Penso ser inútil nos indagarmos o que a leva a se dedicar tanto a Cyril, o que o filme também não explica. Prefiro sair do cinema crendo que assim como há pessoas tão pobres de amor (como o pai do menino), existem outras que simplesmente estão disponíveis para quem clama. Por isso a impressão que fica é que, mais do que um filme de abandono, este é um filme de acolhimento puro e simples, sem explicações lógicas, e é isso que o torna tão belo, já que os acontecimentos são colocados de maneira rasgada e crua, sem a mínima poesia.

Gostei muito do fato dos traços psicológicos das personagens não serem explorados (até saímos com a sensação de que elas nem têm nada de especial) e do filme explorar as situações adversas e inesperadas da vida e o modo como as pessoas as encaram, independentemente de quem elas sejam. A mesma Samantha agredida pelo menino depois o leva para passear de bicicleta e comer um sanduíche na sombra de uma árvore. O mesmo rapaz que vive do tráfico tem um cuidado incrível com a avó.

O Garoto da bicicleta é agridoce, e a mensagem que fica é: a vida vai colocando à nossa frente as mais diversas situações, boas ou ruins; o que você vai fazer delas é que definirá quem você é.

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