sexta-feira, 19 de março de 2010

Imagens da loucura

enviada por Marcelo Luiz Galli -Especiais
Imagens da loucura
16/3/2010

Por Fábio Reynol

Agência FAPESP – A professora de artes Tatiana Fecchio da Cunha
Gonçalves reuniu cerca de 800 imagens de doentes mentais em hospitais
psiquiátricos, entre elas algumas registradas por quatro fotógrafos ao
longo da segunda metade do século 20 em instituições brasileiras.

O trabalho foi feito para o doutorado no Instituto de Artes da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), para o qual contou com
Bolsa da FAPESP. Intitulada “A representação do louco e da loucura nas
imagens de quatro fotógrafos brasileiros do século 20: Alice Brill,
Leonid Streliaev, Cláudio Edinger, Cláudia Martins”, a tese foi
defendida e aprovada no fim de janeiro.

“Há um conjunto de construções e elementos formais que tomam o ‘louco’
por diverso, de outra ordem, patológico, a distância”, disse à Agência
FAPESP. A inspiração para o estudo surgiu durante o mestrado, quando
Tatiana deparou com retratos de doentes mentais registrados por Alice
Brill e pelo artista plástico Lasar Segall. “Achei intrigante o
interesse deles pelo tema”, disse.

Por meio de um levantamento histórico detalhado, Tatiana recuperou
imagens e conceitos produzidos a partir do século 17, quando surgiram
os primeiros espaços de internação para doentes mentais.

Segundo ela, a loucura tem sido compreendida de diferentes maneiras ao
longo do tempo. No entanto, as suas representações mantiveram alguns
aspectos que chegaram até os dias atuais. “É o caso do louco visto
como o diferente, o outro, o que deve ser isolado”, disse Tatiana.

Esse distanciamento entre o fotógrafo e o doente chega a ser
delimitado em algumas fotos por meio da presença de grades nas cenas
com o enfermo atrás delas.

Também são mantidos nas representações mais recentes, segundo a
pesquisa, alguns elementos antigos de tipificação da loucura, como o
louco melancólico das obras do pintor alemão Albrecht Dürer, no início
do século 16, e o louco introspectivo segurando a cabeça, presente na
Iconologia do escritor italiano Cesare Ripa no século 17.

Outras representações ainda ressaltam a bestialidade e a
agressividade, passando, segundo Tatiana, a ideia de ameaça, como se o
louco possuísse uma força imensurável.

Para a autora, muitas dessas imagens, realizadas há séculos,
naturalizaram uma forma de compreender o louco como diverso, em sua
“carga de alteridade”, segundo ela refere, constituindo ainda no
século 20 “a ideia de que o louco deve ser afastado da sociedade”,
afirmou.

Tatiana não se deteve na representação artística, tendo investigado
também as ilustrações que a medicina produziu para registrar a
loucura. Os estudos fisionômicos e as medições de índices corporais,
segundo conta, eram utilizados como elementos para diagnósticos e para
traçar teorias a respeito da insanidade mental.

“Por esse motivo, a fotografia assumiu uma grande importância para a
psiquiatria e para teorias que associavam fisionomias a determinados
comportamentos”, disse.

Um desses estudos mais famosos é o do italiano Cesare Lombroso, que
associou características e defeitos faciais a comportamentos
criminosos. Nesse aspecto, Tatiana ressalta que a fotografia assumiu,
pela suposta objetividade do aparato técnico, um reconhecimento
importante como instrumento científico.

Reforma psiquiátrica

Na segunda parte da tese, a autora analisa a produção dos quatro
fotógrafos que compõem o cerne de seu trabalho: Alice Brill, fotógrafa
e artista plástica alemã que retrata o Hospital do Juquery (SP), no
ano de 1950; Leonid Streliaev, repórter fotográfico que fez imagens do
Hospital São Pedro (RS) em 1971; Cláudio Edinger, que também
fotografou o Juquery em 1989 e 1990; e Cláudia Martins, que produziu
imagens da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, enquanto era
estudante de jornalismo, de 1997 a 1999.

O período desses ensaios corresponde às mudanças provocadas pela
reforma psiquiátrica iniciada na década de 1960. Tatiana contou que o
fim da Segunda Guerra Mundial trouxe questionamentos à sociedade em
relação aos padrões de “normatização”, os quais eram impostos
especialmente em instituições como as escolas, as prisões e os
manicômios.

“Com a reforma foram questionados os tratamentos da época e a doença
mental passou a ser compreendida menos como uma doença dos corpos e
mais como um reflexo de dinâmicas sociais”, revelou a pesquisadora.

Paradoxalmente, a autora ainda encontrou na segunda metade do século
20 resquícios da caracterização da loucura de tempos anteriores, o que
mostra, segundo ela, que a ruptura com os antigos estigmas não foi tão
grande. Outra hipótese é a de que a crítica proposta pela reforma
psiquiátrica ainda está em processo, o que ainda deve provocar
alterações na forma visual de representação da loucura.

“O fotógrafo [do século 20] ainda não partilha o espaço do
fotografado, ele não está no mesmo lugar do outro”, disse. Dentre os
fotógrafos estudados há uma tentativa mais explícita de rompimento com
essa postura somente no trabalho de Cláudia Martins, segundo a
pesquisadora.

“Ela procurou fazer com que os pacientes participassem da construção
da imagem, eram eles que escolhiam o pano de fundo do cenário, a pose
que fariam na foto e se estariam ou não acompanhados por outros
internos”, apontou.

O estudo também traçou as mudanças nas relações da sociedade com os
doentes mentais ao longo do tempo. Em 1950, por exemplo, Alice Brill
foi aconselhada por amigos a não entrar no Juquery porque estava
grávida, sob a justificativa de que os loucos poderiam “influenciar” o
bebê. Já as imagens de Edinger, no fim dos anos 1980, trazem um tema
inédito em trabalhos desse gênero: a homossexualidade.

Uma das conclusões da autora é a desconstrução do mito da objetividade
da fotografia e do fotógrafo, afirmação recorrente no advento dessa
técnica. Diante da pintura, a fotografia era tida como descrição exata
da realidade a ponto de garantir registros objetivos à medicina, de
acordo com a pesquisa.

“Essa objetividade é aparente, a fotografia é composta de escolhas do
fotógrafo: onde os objetos serão colocados, quais lentes serão usadas,
qual será o cenário, entre outros”, disse. Em todo o material
fotográfico analisado está presente a tensão anormalidade/diverso e
normalidade/identidade ligados à representação do “louco”.

Esse aspecto foi relembrado por ela e associado às ideias do filósofo
francês Michel Foucault, para quem a loucura seria o campo de exclusão
social do diverso. A exclusão estaria associada ao advento das
cidades, segundo Tatiana. “As cidades exigiram indivíduos muito bem
comportados e isolaram quem não se enquadrava em seus padrões, como
leprosos, prostitutas e loucos”, disse.

No entanto, ao contrário de outros estigmas, a loucura poderia ser
aplicada a qualquer um. Por isso, foi muito usada como instrumento de
poder. “Com diagnósticos subjetivos, qualquer comportamento fora dos
padrões vigentes poderia ser diagnosticado como loucura”, disse
Tatiana. Como exemplo, cita uma mulher internada como louca no
Hospital Pedro II, no início do século passado, porque resolveu
dissolver o casamento logo após a noite de núpcias.

De acordo com a orientadora de Tatiana, a professora Cláudia Valladão
de Mattos, do Departamento de Artes Plásticas da Unicamp, um sinal da
qualidade do trabalho foi a sua grande receptividade em instituições
internacionais.

“Em países como França e Alemanha, com forte tradição artística, a
pesquisa de Tatiana teve uma ótima receptividade”, disse a professora,
explicando que o trabalho foi aceito em todos os eventos europeus em
que se inscreveu.

“Eles têm muito interesse em conhecer dados sobre o Brasil. O material
reunido por Tatiana é considerado raro e importante para a comparação
com estudos similares feitos em instituições de tratamento europeias”,
disse.

O interesse estrangeiro pelo trabalho ficou evidente durante os dez
meses da pesquisa que Tatiana passou na Inglaterra na Wellcome Trust
for the History of Medicine da University College London, período no
qual contou com bolsa de doutorado com estágio no exterior da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Cláudia também destaca o aspecto interdisciplinar da tese que envolveu
arte, história e a medicina psiquiátrica. “A tese também é importante
para a história da arte, e abre um campo enorme a ser investigado”,
disse.

Tatiana pretende continuar a pesquisa por meio de um pós-doutorado.
Dessa vez, quer analisar imagens de vídeo de doentes mentais. “Durante
a pesquisa entrei em contato com um material muito grande que pretendo
aproveitar agora estudando as imagens em movimento”, disse.

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