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domingo, 10 de janeiro de 2010

João Cabral, um poeta para poetas


Por: Astier Basílio do Jornal da Paraíba

Ele dizia que não gostava de música, que não acreditava em inspiração. Afirmações não muito comuns para um poeta. Se estivesse vivo, o pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) completaria 90 anos neste sábado. Autor de pouca popularidade - se comparado com nomes como Vinícius de Morais ou Carlos Drummond de Andrade - Cabral foi um poeta devotado por outros poetas. Era um poeta para poetas.
A reportagem do JORNAL DA PARAÍBA ouviu dois poetas-críticos, Sérgio de Castro Pinto e Hildeberto Barbosa Filho, que analisaram o impacto da poética de João Cabral na literatura paraibana, além de, no caso de Sérgio, revelar detalhes de uma entrevista realizada com Cabral quando ele esteve na Paraíba.
“Por ter uma dicção muito particular, por ser um poeta forte, como diria Harold Bloom - e João Cabral o era - poetas como ele tendem a causar um impacto muito intenso em poetas”, avalia Hildeberto. “Ele gerou uma ‘angústia da influência’ e poucos escaparam disso no Estado. É detectável isso se você vir o primeiro Vanildo (Brito), o primeiro Jomar (Morais Souto), o primeiro Sitônio (Pinto), Antônio Morais e Sérgio de Castro Pinto, nestas duas gerações, como aconteceu em Pernambuco com a Geração 65”.
Hildeberto fala dessa leva de autores influenciados: “Alguns se salvaram, encontraram sua dicção própria, enquanto outros se transformaram em meros filhotes bastardos, em diluidores, como diria o Ezra Pound”, observou.
Sobre a influência cabralina, Sérgio de Castro Pinto também faz coro com Hildeberto e amplia ainda mais o arco de alcance: “Cabral não influenciou apenas a poesia brasileira, mas também a de Portugal. Na Paraíba, então, não poderia ser diferente, sobretudo com relação ao Grupo Sanhauá. Creio, no entanto, que foi uma influência saudável, como o é a de todo grande poeta”.
Na entrevista dada por Sérgio de Castro Pinto, ao poeta Jomar Souto e o saudoso Luiz Augusto Crispim, no apartamento do ex-governador Tarcísio Burity, João Cabral não fugiu dos roteiros anteriores. “Na entrevista que o autor pernambucano nos deu, não poderia ter sido diferente: falou da primazia da razão sobre o sentimento na sua poesia, da frustração que lhe propiciou ‘Morte e Vida Severina’, que a desejava na boca do povo, a exemplo de alguns poemas de Augusto dos Anjos... Enfim, excetuando-se algumas poucas, pouquíssimas “boutades”, repetiu praticamente tudo o que já dissera em entrevistas anteriores”.
Sobre as vezes em que esteve pessoalmente com João Cabral, Sérgio de Castro Pinto diz: “Só o encontrei três vezes: no apartamento do professor Tarcísio Burity, na Associação Comercial de Campina Grande - onde fora pronunciar uma palestra - e, por último, no Centro de Convenções Rebouças (SP). Mas, uma das particularidades de João Cabral residia no fato de, embora revolucionário na poesia, jamais abdicou de sua linhagem ilustre. Daí não perder a oportunidade de, quase sempre, mencionar o seu grau de parentesco com Gilberto Freyre e com Manuel Bandeira”.
Em contrapartida, observa Castro Pinto, João Cabral fingia não reconhecer os muitos poetas de ontem e de hoje que mantêm estreitíssimos laços de parentesco com a sua poesia. “Aliás, registro este fato no meu livro, A Casa e Seus Arredores (...) Na verdade, quando o questionavam a propósito de sua influência sobre os jovens poetas, saía pela tangente. A condição de embaixador fornecia-lhe o pretexto necessário para se omitir sobre o assunto. Vivia longe do Brasil, não tinha acesso aos livros aqui publicados, etc., etc. E num misto de recato e de astúcia, silenciava sobre a nova geração de poetas brasileiros. Inclusive, quando Jomar Moraes Souto (...) disse que com ‘A Bolandeira’ desejara render um tributo à dicção cabralina, o poeta pernambucano fingiu não encontrar nenhuma semelhança entre o texto do paraibano e sua obra. (...) Ao seu modo, quem sabe, talvez quisesse nos alertar dos muitos poetas que já haviam se extraviado nos caminhos que só ele conhecia como a palma da mão e com os ‘dez mil dedos da linguagem’”.
E hoje em dia? João Cabral ainda é uma influência viva para quem vai fazer poesia atualmente? “Eu fecho com Bloom: o novo poeta tem de matar os seus pais. João Cabral é, sim, um duelo fortíssimo para o novo poeta. É impossível fazer poesia hoje, aqui na Paraíba, sem passar por João Cabral”, analisou Hildeberto Barbosa Filho.

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