domingo, 13 de dezembro de 2009

Donny Hathaway: O legado de uma alma em conflito

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO - No dia 30 de janeiro de 1979, Donny Hathaway era encontrado morto na calçada em frente ao Essex House Hotel, em Nova York. A partir daquele instante, uma série de especulações sobre o trágico episódio ganhava corpo. Mero acidente ou ato premeditado? O jovem músico havia caído ou se atirado da janela do edifício? Todos os indícios guiavam a investigação policial à hipótese de suicídio. Aos 34 anos e ainda sob o impacto do sucesso, sua prematura morte chocou a comunidade negra e a todo o mercado fonográfico, que, naqueles anos, celebrava a efervescência da soul music a bordo de fenômenos vocais como Marvin Gaye e Stevie Wonder. Da noite para o dia, familiares, amigos e fãs questionavam-se sobre os motivos que o teriam levado a tal ato e estado de desespero. O quão atormentado seria o cantor e autor de melodias tão tristes e profundas, como outras tão eufóricas e dançantes?

Resposta alguma servia para preencher a lacuna de informações que o ostracismo de seus últimos anos de vida havia instaurado. Apenas os mais próximos ventilavam alguma noção sobre os embates psíquicos que haviam fragilizado sua saúde mental. Mais do que um dos maiores cantores da história da música popular moderna, embalado pelo peso de um grave sísmico e a leveza de agudos altivos e firmes, Hathaway era compositor, arranjador e produtor musical. E é pela qualidade de seus múltiplos dotes que, 40 anos depois da sua morte e três décadas após o lançamento do seminal Everything is everything (1970), sua contribuição à música pop dos anos 60 e 70 até os dias de hoje é exaltada.

“Todos que o escutavam concordavam que Donny era um grande cantor. A Atlantic Records, Curtis Mayfield, King Curtis... Todos entenderam que se tratava de um gênio”, diz o arranjador e amigo Harold Wheeler, em depoimento ao primeiro documentário dedicado à conturbada vida e obra do cantor, Donny Hathaway – Unsung, produzido este ano pela TV One.

Em sua breve e intensa carreira (1970-1979), Hathaway emprestou sofisticação harmônica à simplicidade do r&b. Seu legado extravasa o punhado de hits em paradas de sucesso e o balizamento favorável da crítica para os três álbuns solo que compõem sua trajetória. Filha mais velha do músico, a cantora Lalah Hathaway encontra dificuldades em mensurar o legado das contribuições musicais de seu pai. E ainda mais para avaliar a influência que a sua música ainda causa nos jovens artistas que o citam como influência – Amy Winehouse, Alicia Keys, Raul Midon, Justin Timberlake, rappers como Common, Nas e muitos outros.

– É impossível avaliar a sua importância e influência no trabalho desses artistas. Acho que o maior legado é o sentido espiritual que ele representou – acredita Lalah. – Quando ouvimos suas canções podemos sentir o que se passava com ele em cada um de seus trabalhos. As pessoas não se cansam de dizer que a voz do meu pai faz chorar, mesmo nas canções mais alegres. Tanto a sua alegria como a sua dor brilham da mesma forma, sempre por uma essência verdadeira.

Em 1945, a Segunda Guerra Mundial havia chegado ao fim, os soldados americanos retornavam para casa e Donny Hathaway nascia em Chicago. Filho de um ex-militar, foi criado em St. Louis, por sua mãe. Lá, desde pequeno acompanhava as apresentações de sua avó, uma respeitada cantora gospel. Prodígio, aos 4 anos já estampava sua figura rechonchuda em cartazes. Aos poucos, suas habilidades como instrumentista e cantor saltaram aos olhos dos colegas de escola, e lhe renderam uma bolsa na prestigiada Howard University, que abrigava afro-descendentes sem restrição, numa época de grande segregação racial. O reconhecimento dos colegas lhe emprestava confiança para deixar de lado a timidez. E inclusive para render-se ao primeiro amor, a vocalista Eulaulah Hathaway. Era meados dos anos 60, a cena musical e noturna de Washington tronava-se elétrica e faminta por jovens talentos – e Hatahaway aproveitava as oportunidades.

Pouco tempo depois, em 1967, ganhava sua primeira filha, Lalah. A responsabilidade batia à porta. E um novo emprego surge como um presente de outra lenda da música black, Curtis Mayfield. Pelo selo de Mayfield, gravou alguns singles e discos, antes de retornar a Chicago para compor e produzir artistas como The Staple Singers, entre outros nomes contratados por gravadoras lendárias, como Chess e Stax Records. A consistência das ideias, a fluidez das composições e a criatividade dos arranjos tecidos em estúdio chamaram a atenção de Roberta Flack, que debutava com duas canções de Hathaway no repertório. Após prensar o single The ghetto, com o Rick Power Trio, sua musicalidade fisgou medalhões do mercado. Entre ele, King Curtis, que o pôs em contato com o diretor artístico e executivo da Atlantic Records, Jerry Wexler (1917-2008).

“Curtis jogou na minha mesa uma fita desse cantor... Fiquei impressionado com o que ouvi. Àquela época costumava dizer que tínhamos dois gênios, Aretha Franklin e Ray Charles. Mas quando Donny surgiu e assinamos contrato fiz questão de anunciar a todos que tínhamos encontrado o nosso grande gênio”, disse Wexler à época.

Sob o guarda-chuva da Atlantic, artistas de peso receberam guarida. Wexler fora o responsável por descobrir e fechar acordos milionários com Ray Charles, Aretha Franklin, Led Zeppelin, Wilson Pickett, Dusty Springfield, entre outros. Em 1969, era chegada a hora de Hathaway, que fez as malas e foi a Nova York gravar seu debute. Escreveu arranjos e compôs todas as faixas de Everything is everything.

“Donny tinha um dom fora do normal. Era perfeccionista e sabia muito bem o que queria. Tudo estava escrito na pauta. Lembro de uma sessão em que ele passou horas repetindo a mesma parte até que soasse da forma como imaginava”, conta Wexler.

Após a boa receptividade do disco e a gravação do hit The Christmas, Hathaway terminou o segundo álbum, auto-intitulado Donny Hathaway. Capitaneado pelo antológico single A song for you e pela bela faixa de abertura, Givin up, o trabalho foi elogiado pela crítica.

– Giving up é uma das maiores canções já feitas – elogia, em entrevista ao Jornal do Brasil, a jovem e talentosa cantora inglesa Joss Stone. – Donny tem controle total sobre todas as etapas do processo. Não há espaço para acidentes, erros… Ele é brilhante e me faz sentir bem demais sempre que ouço suas músicas.

Em 1972, após o nascimento de sua segunda filha, Kenya, Donny uniu forças com Roberta Flack para um álbum recheado de clássicos, interpretados em duetos. O trabalho bateu o terceiro lugar nas paradas e o single Where's the love recebeu uma indicação ao Grammy. Inúmeras propostas e convites para produção de discos e encomendas de canções não paravam de chegar. E o mercado cinematográfico não ficou para trás. Com supervisão de Quincy Jones, foi escalado para compor a trilha para o longa Come back, Charleston blue (1972). “Eu era o supervisor geral do filme e os estúdios pediram que eu gravasse com o melhor compositor que eu conhecia. O mais incrível de eles era ele”, disse Quincy Jones.

Na mesma progressão em que florescia o sucesso, era aplacado por um comportamento irascível, que estranhava até aos amigos mais próximos. Em casa, sintonizava a TV em canais que não transmitiam programa algum. No estúdio, explosões de irritabilidade eram constantes. Enquanto empresários e produtores diziam que tudo estava sob controle, era claro que algo a mais precisava ser feito. “Procurei ajuda médica para saber se realmente havia algo de errado”, revela sua ex-mulher no documentário.

O diagnóstico era claro: paranoia esquizofrênica. Hathaway acreditava que a sua filha Lalah podia enxergar o que se passava dentro dele. Mania de perseguição, crises de ansiedade e de pânico eram mantidas sob controle à base de pesados medicamentos. Aos poucos, sentia-se melhor e deixava o tratamento de lado. A doença permanecia como uma sombra. Em 1973, o lançamento de sua obra derradeira, Extension of a man, não obteve o sucesso alcançado anteriormente. Conforme os sintomas pioravam, ficava mais difícil de ignorar o que acontecia com ele. “Fui visitá-lo no hospital e percebi mudanças repentinas de humor”, afirma o compositor Glen Watts.

De 1974 a 1978, Donny desapareceu da mídia. Perdeu contatos no mercado e rompeu o relacionamento com Eulaulah. Suas pequenas filhas deixaram de ter contato com o pai. E até hoje Lalah lembra-se pouco dos momentos em que estiveram juntos.

– Não lembro direito de como era o meu pai. Tinha apenas seis ou sete anos à época – diz ela.

Em 1978, a febre disco tomava conta das pistas e das rádios. Muitos de seus contemporâneos, entre eles Stevie Wonder e Marvin Gaye, adequavam-se à nova sonoridade, enquanto Hathaway esforçava-se para transpor cinco anos de sofrimento psíquico e obscuridade. Voltou a trabalhar com Roberta Flack, e com ela ganhou força a bordo do hit The closer I get to you. Iniciaram as gravações de um segundo trabalho em dupla. Seus vocais continuavam sólidos, mas seu estado físico e mental eram visivelmente frágeis. Enquanto punha voz numa das faixas, desesperou-se. Saiu correndo do estúdio e foi encontrado chorando no corredor. Dizia estar sendo perseguido e ameaçado de morte. “Os homens brancos querem me matar. Colocaram meu cérebro numa máquina e agora estão roubando minha música e o meu som”, dizia. Na manhã seguinte ao surto, aos 34 anos, sua vida ganhava o ponto final.

16:25 - 12/12/2009

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