domingo, 27 de dezembro de 2009

Nosso amor por Clarice Lispector


Flávio, Sérgio, Homero e Luzilá, tendo ao fundo fotos de Thomas Farkasn
by Nosso amor por Clarice LispectorA palavra é mulher por Homero Fonseca Recife Pe http://bit.ly/4p435f


O último Sarau Plural do ano, que eu, Flávio Brayner e Sérgio Gusmão tocamos na Arte Plural Galeria, teve como convidada especial Luzilá Gonçalves e leitura de textos de Florbela Espanca, Cecília Meireles, Clairce Lispector, Dione Barreto e Emília Freitas.
Luzilá leu vários trechos de sua obra, que eu considero na primeira linha da literatura brasileira contemporânea, como a doce história do bodinho do romance "Muito além do corpo" e o episódio da lua-de-mel do senhor de engenho com a sobrinha menina do romance "No tempo frágil das horas", cena onde não há uma vírgula a mais ou a menos, e em que a narrativa precisa e delicada traça um retrato humano (e também sociológico) daqueles personagens das classes altas da nossa antiga aristocracia açucareira, sobretudo construindo uma atmosfera rica em sugestões e sentimentos.
No início, eu dissera que, como é o escopo do Sarau, apesar do tema, não programamos discussões. Estávamos ali para mostrar o trabalho de escritoras talentosas de épocas e lugares diferentes e não nos dispúnhamos a reacender a velha polêmica.
Mas dei minha opinião de que, embora qualquer rótulo daquele tipo seja necessariamente reducionista, eu não tinha dúvida de que certas especificidades podiam demandar um texto que somente uma mulher seria capaz de escrevê-lo E o maior exemplo era o romance de Luzilá e, especialmente, aquela cena. Não vou reproduzir aqui para que vocês corram à livraria e comprem-no.

No final, li um conto inédito meu, que repasso aqui para vocês:

Nosso amor por Clarice Lispector

Ao poeta José Mário Rodrigues

Faz tanto tempo...
Eu não queria contar essa história... Podia parecer coisa inventada. Fantasia de velho ou, pior, algo engendrado para me enaltecer ou qualquer coisa assim. Mas a verdade é que nada tem de enaltecedora para mim, por que teria?
Quando estamos a certa altura da vida, principalmente quando se viveu mais tempo que a maioria das pessoas, como eu, o passado impõe toda sua tirania. Somente a ele podemos nos referir, pois não temos futuro e o presente é apenas o pretexto para a memória, mesmo estiolada, desenrolar seu carretel a todo momento.
Então, aqui vai o meu relato sobre o amor que eu e meu irmão Max sentimos por Clarice, uma garota magricela e loira, de olhos submersos e tranças desbotadas, naquele remoto ano de 1929.
Tínhamos, Max e eu, 17 anos, completados no dia 24 de dezembro do ano anterior – data fatídica, sempre a nos lembrar nossa condição de duplamente estrangeiros. Ajudávamos nosso pai na loja de tecidos na Boa Vista, mesmo bairro onde morávamos, e nos preparávamos para ingressar na Faculdade de Direito, indecisos entre o latim e o metro, as estamparias e os tratados. Os Lispector mudaram-se para um sobrado na praça em frente à nossa casa havia um ano. No início, pouco a víamos, exceto em esparsas aparições na janela do primeiro andar do sobrado, onde se deixava ficar por pouco tempo, com olhos claros de devaneio.
Quando começaram as aulas, estabeleceu-se um ritual entre nós. Cedinho da manhã, ela passava, arrastada pela mão do pai, a caminho da escola. Eu e Max ficávamos perfilados na calçada, para vê-la passar, gélida e vaporosa. Ela passava de cabeça baixa, embora pressentindo nossas presenças atentas. Apesar da diferença de idade – ela contava não mais que uns 10 anos – parecia que éramos dois pirralhos intimidados diante de uma Grande Dama.
Gêmeos idênticos, formávamos uma duplicata de Cavalheiros de Patética Figura, parados, imóveis, pálidos e tensos, aguardando sua passagem triunfal. Mas apesar da postura idêntica, o que havia dentro de nós era muito diferente.
Clarice começou a demonstrar visível preferência por Max. Não sei como ela nos distinguia. O fato é que Clarice, depois de um tempo daquele ritual diário, começou volver seu olhar aquático para Max, como se ali, na calçada, houvesse apenas ele e eu não passasse de sua sombra tridimensional.
Então, começamos a ficar diferentes. Max, sempre seguro de si; eu, cada vez mais sorumbático. Ele era a fotografia, eu o negativo.
Nossa rotina, até então, era única; pela manhã ficávamos em casa estudando, almoçávamos às 11 em ponto e seguíamos para a loja do pai. À noite, assistíamos às aulas preparatórias para a faculdade de Direito. Nunca víamos o retorno de Clarice da escola. Quer dizer, eu nunca via. Porque Max começou a arrumar os mais diferentes pretextos para se atrasar, eu seguia para a loja, e ele ficava na tocaia da nossa amada, isso descobri depois. Ele era cativante e enrolava a Mamma em tudo, enquanto eu, desajeitado, cumpria à risca os preceitos impostos por ela e mesmo assim vivia levando reprimendas e até gritos. Aos domingos, após o confinamento dos sábados, Max apanhava o bonde e ia, à tarde, assistir às partidas de football no campo da Jaqueira e, à noite, juntava-se a um bando esfuziante nas retretas da Praça do Derby, onde meninas embonecadas desfilavam, no footing, para rapazes cheios de si e vazios de pensamentos. Eu lia e, à noite, hipnotizava-me no cine Polytheama, em tramas como O Soldado Desconhecido, Presas do Destino ou O Caminho do Inferno e me enredava, cheio de culpa (por causa de Clarice!), nos encantos de Gloria Swanson, Pauline Starke e Norma Shearer.
Um dia, desconfiado das artimanhas de Max, inventei uma dor de cabeça aguda para não ir à loja, tomei um cachete empurrado goela abaixo pela Mamma e fiquei à espreita. Por volta do meio-dia, Max tinha trocado de roupa, besuntado o cabelo, passado uma escovinha no buço arrogante e postou-se à janela, vigiando a esquina. Quando Clarice surgiu na calçada, escoltada pelo pai – com seu ar de ausente perpétuo – ele pegou um livro volumoso, enfiou debaixo do sovaco, ganhou a rua e começou a caminhar, num passo cronometrado para cruzar com ela uns metros mais à frente. Então aconteceu para mim o Inimaginável, a Catástrofe, a Traição! Numa coreografia satânica, ela largou a mão do pai – que continuou em frente, distraído – e abaixou-se para ajeitar uma das meias, reerguendo-se exatamente quando Max passava por ela e... eu não acreditava no que estava vendo pelas frestas de uma das janelas de frente de casa... estendeu sorrateiramente o bracinho fino em direção a Max... minha cabeça latejava... suas mãos se tocaram um segundo... meus olhos ardiam no esforço de reter a cena... ele recolheu um pedaço de papel que ela lhe passou... minha garganta era o deserto do Sahara... ela apressou o passo e novamente deu a mão ao pai... minhas pernas tremiam tanto que machuquei um pouco os joelhos de encontro à parede...
Dei por mim deitado em minha cama, a Mamma me aplicando compressas e ungüentos na cabeça, me xingando por ser um menino fraco, que não se alimentava direito nem fazia exercícios. Seus cuidados eram quase safanões. Como à noite ainda estava acamado, Max, antes de sair para as aulas, olhou-me meio irônico meio piedoso, abriu um sorriso zombeteiro: Harh, se tu não paras de tocar tanta punheta ainda vai crescer cabelo na palma das tuas mãos! E saiu rindo, sem atentar para a banana que lhe lancei do leito. Ele nunca me chamava pelo nome, era sempre irmão, como se eu não passasse de uma cópia dele.
Depois que ele saiu, toquei a cavoucar nas coisas dele, procurando a mensagem que Clarice lhe passara furtivamente. Vasculhei livros e papéis, gavetas e cadernos, e nada. Desalentado e aliviado ao mesmo tempo, conclui que ele devia ter colocado dentro do livro e levado para a aula. Com delírios de febre, esperei sua volta. Quando ele, depois de uma eternidade, voltou, lanchou alguma coisa, urinou no quintal, vestiu o pijama, deitou-se e apagou a luz – o tempo todo eu fingindo que dormia –, esperei mais um pouco, levantei de mansinho e, tateando no escuro, peguei os livros que ele jogara em cima da pequena mesa do quarto, fui à sala da frente, no escuro, todos dormiam, acendi uma vela e comecei minha busca. O bilhete estava dobrado entre as páginas de um tratado. Li e reli a frase várias vezes, com os olhos em brasa, as mãos tremendo e a cabeça vazia e as três palavrinhas em hebraico ficaram martelando em meu cérebro: “Ani ochevet otchah”. A vela fenecia e eu junto, quando dei por mim estava no escuro, voltei para o quarto, guardei o papelzinho dentro do livro e caí na cama. Passei o dia seguinte acamado, a Mamma me forçando a ingerir goles horrorosos de xarope de bromureto, vendo Max entrar e sair, leve e feliz, repetindo mentalmente a frase que me matava e o fazia mais vivo, “Eu também te amo”.
Quando a rotina se restabeleceu, dois dias depois, tudo estava mudado. Eu, Max, Clarice e o Mundo, com suas palpitações de vida e impulsos de morte. Eu não me juntava mais a Max para vê-la para passar para a escola, de manhã. Observava pelas frestas. Max, cada vez mais desenvolto, praticava com Clarice uma espécie de linguagem de sinais, da qual muita coisa me escapava. Certamente eles andavam se encontrando às escondidas... Os gestos eram expressões de coisas sabidas, exclamações felizes, interrogações apreensivas, reencontros confirmados. Eu, cada vez mais magro e pálido. Max, corado e encorpado. Ela, resplandecente em sua diminuta figura. Os irmãos gêmeos menos idênticos a cada dia.
Um dia, tudo se alterou.
Max não ficou a esperar a passagem de Clarice. Ela, surpresa, olhava, apreensiva, em direção à nossa casa. Eu tudo via pelas brechas da janela. Depois de um breve exercício de espionagem sobre meu irmão, descobri que Max desinteressara-se dela, como fazia com tudo, pois era dado a rompantes de entusiasmos, logo abandonando o objeto de interesse, para trocá-lo por outro, a conquistar. Meu irmão estava namorando uma garota sapeca, filha de um juiz, com quem se encontrava nas retretas do Derby.
Ficamos eu e Clarice, com a janela no meio. Ela passava arrastada pela mão do pai, o rosto novamente voltado para o chão, como nos primeiros dias de sua chegada. Eu, colado à janela, o coração batucando dissonante, sem coragem de expor a cara. Max lá, dentro, cumprindo alegremente seus rituais matinais, indiferente ao que não fosse espelho.
Um domingo à tarde, Max saíra todo perfumado, eu tentava ler um romance de Dostoievski, a cabeça pesava, abri a janela para respirar e olhei para a praça. Clarice estava na calçada de seu sobrado, entregando um livro a uma menina gorducha. Trocaram algumas palavras, a amiga despediu-se com um aceno. Ela ficou parada, olhos fitos no chão, distraída. Por um instante, levantou os olhos e fitou nossa casa. Recuei de supetão da janela. Dei um tempo, espichei o pescoço de novo: lá estava ela, absorta com algum espetáculo que se desenrolava a seus pés. Ela começou a caminhar, devagar, olhos no chão, acompanhando algo que se movia. Chegou ao final da calçada, dobrou a esquina, entrando numa rua lateral descalçada. Eu estava intrigado. Resolvi seguí-la. Cruzei a praça correndo e cheguei cauteloso à esquina. Ela desaparecera. Pé ante pé, fui avançando. Calculei que devia estar no terreno baldio, bem perto. Aproximando-me cautelosamente, abaixei-me ante uns arbustos. Por entre as ramas, divisei seu vulto. Escondido pelo mato, avancei. E vi. Ela estava sentada no chão, os joelhos cruzados, de perfil para meu ponto de observação, totalmente concentrada. Segurava algo entre os dedos indicador e polegar, olhando fixamente. Chorava, em silêncio, dois grossos filetes escorrendo por suas faces pálidas. Cheguei mais perto, com o maior cuidado, protegido pela folhagem. O que ela segurava entre os dedos era algo preto, que se mexia. Com grande esforço da vista, julguei distinguir uma barata! Não sei quanto tempo se passou: ela segurando o bicho asqueroso e chorando, compenetrada como jamais a vira. Eu, petrificado, segurando a respiração. De repente, ela pôs a barata na boca e começou a mastigá-la. Foi em dois tempos: primeiro, enfiou metade da barata, indecisa. O inseto se debatia em sua boca. Depois, ela empurrou o resto com os dedos e começou a triturar com os dentes, os lábios bem cerrados. Mesmo assim pareceu-me divisar um fio de gosma escorrendo pelo canto dos lábios. Não agüentei mais ver. Recuei rapidamente, atravessei a praça correndo, entrei em casa e mal cheguei ao banheiro nos fundos, vomitei em jorro.
Menos de um mês depois, Clarice e o pai se mudaram para o Rio de Janeiro. Vi-os entrar no carro de aluguel, com a bagagem escassa, em direção ao porto, para tomar o vapor. Max não estava. Eu saí à calçada e fiquei esperando o táxi dar a volta e tomar o rumo da rua da Imperatriz. Passou bem à minha frente. Ela olhou em minha direção, mas seus olhos não se fixaram em mim. Vagueavam pela fachada, procurando algo, em vão, e, por fim, me encontraram. Havia decepção naqueles olhos grandes e aquáticos. Mesmo assim, fiz um tímido aceno. Ela pareceu surpresa, olhou com mais atenção e finalmente me devolveu o aceno, no justo tempo em que o carro avançou e desapareceu na esquina.
........................
É essa a história.
Faz tanto tempo...
Espero que a memória não tenha me pregado uma peça. Penso que não, pois, hoje, quando me aproximo do centenário, posso não lembrar do que jantei ontem, mas recordo com muita nitidez os fatos vividos nas épocas mais recuadas. Tenho mesmo a sensação de que estou regredindo ao passado e em breve serei criança novamente...


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