sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Rubem Fonseca lança "O seminarista"


http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/11/06/e061121319.aspRubem Fonseca Foto: Zeca

Alvaro Costa e Silva, Jornal do Brasil

RIO - O narrador de O seminarista, mais recente romance de Rubem Fonseca que chegou ontem às livrarias, é um matador de aluguel que decide jogar a Beretta e a Glock na Baía de Guanabara. Ex-seminarista – daí o título – na verdade é conhecido no métier como o Especialista: mata sempre com um teco na cabeça. Vive citando brocardos, axiomas e sentenças latinas. No original. Dá-lhe Horácio, Cícero, Virgílio, Petrarca, Plínio o Velho, Santo Agostinho, Propércio e outros menos cotados.

O personagem – cujo nome de batismo é José, mas gosta de ser chamado apenas de Zé, como Zé Rubem, que é como os amigos mais íntimos tratam o escritor – vai descobrir que não é assim tão fácil se aposentar. Também grande admirador de poesia – dá-lhe Pessoa, Drummond, Bandeira, Gullar, Dickinson, Blake, Frost, Ahkmatova – vale-se de Camões para explicar a decisão de não mais cometer assassinatos: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Para convencer-se de vez, apela para Sêneca: “Alia tentanda est via” (“Deve-se procurar outro caminho”).

O problema é que é muito difícil mudar de vida – ou de estilo. Tanto para o Especialista quanto para Rubem Fonseca. O seminarista é o décimo primeiro romance do autor, primeiro a ser lançado pela Agir. O leitor fiel pode ficar descansado: a mudança de editora – deixou por razões ainda não explicadas a Companhia das Letras em maio deste ano – não modificou em nada o escritor. Continua o mesmo, para o bem e para o mal. Não falta nem o anão.

Mão firme

Na estrutura, o romance é puro Fonseca que, aos 85 anos, mantém a mão firme na tensão narrativa. Numa espécie de overture, o personagem em primeira pessoa descreve a sua função na vida – “O Despachante diz quem é o freguês, me dá as coordenadas e eu faço o serviço” – seu método e as circunstâncias em que abateu suas vítimas. Na média, dá um cadáver a cada duas páginas, edição picotada, como se estivéssemos num filme de Martin Scorsese. Pena que depois, quando o Especialista é obrigado a voltar à ativa, mais pareça um blockbuster estrelado por Jason Statham, aquele careca troncudinho.

A edição de O seminarista – que, assim como todo o restante da obra de Fonseca a sair pela Agir, tem coordenação do jornalista Sérgio Augusto, amigo do escritor – não nega a raça do romance: a capa é bem pulp, uma pistola em primeiro plano, e a quarta capa convida o leitor com o seguinte trecho: “Coloquei sob a camisa a minha Beretta com silenciador e toquei a campainha da casa do freguês. Para sorte minha quem abriu a porta foi Papai Noel. 'Entra, entra', ele disse, 'feliz Natal!'. 'Faz Ô! Ô! Ô! pra mim', pedi, enquanto constatava a berruga ao lado do nariz. 'Ô! Ô! Ô!”, ele fez. Dei um tiro na sua cabeça. Sempre dou um tiro na cabeça”.

Matador mulherengo

Além de cinema e literatura, Zé, o matador, gosta de mulheres. Tanto que até reluta em matá-las. Também gosta de rock no MP3, de bacalhau à Gomes de Sá e dos crioulos do Vasco da Gama de 1923, mas são amores menores perto das mulheres.

Nisso não é diferente de outros personagens fonsequianos, em especial o advogado Mandrake, para quem a visão de uma mulher bonita é sempre uma epifania. Zé é magro e feio, como faz questão de frisar. Será que tem a cabeça como se tivesse sido amassada num torno como a de Jason Statham? Pouco importa: o sucesso com o femeaço é garantido. Vamos aqui dar um verniz científico à coisa, como num romance do próprio Fonseca, que adora essas digressões eruditas. Segundo os erotologistas, o homem mulherengo é quase sempre magro, moreno, piloso, prematuramente calvo, sólido e resistente sob uma fragilidade aparente. Um provérbio inglês manda o seguinte: “A lean dog for a bitch” (“Um cão magro para uma cadela”). Ao menos nos relatos do escritor mineiro, as mulheres confirmam.

Ao contrário do último livro publicado pelo autor na Companhia das Letras (O romance morreu, reunião de crônicas que saíram na internet), o romancista Rubem Fonseca não morreu. O seminarista não é tão bom quanto O caso Morel, A grande arte, Bufo & Spallanzani, Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, Agosto. Mas também não é um O selvagem da ópera, O doente Molière ou Diário de um fescenino. Digamos que fique à altura de Mandrake, a bíblia e a bengala. “Aequiparat factum nobile velle bonum” ( “A boa vontade supre a obra”).

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